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“A arma principal é a força de vontade”  Enviar por email Imprimir

Alexandre Soares

Aos 18 anos, não tinha um rumo, tinha dois: seria engenheiro ou médico. Decidiu-se pela medicina e fê-lo bem. Acabou o curso de Medicina com a brilhante média de 19,4 e, aos 74 anos, é o Dr. do coração de todos os portugueses. Para trás ficaram 50 anos a ensinar Portugal a tomar conta do seu coração.

No espaço que os livros não preenchem, esperamo-lo no seu gabinete na Fundação Professor Fernando Pádua. Entusiasmado, como sempre, especialmente quando tem companhia, entra pela porta adentro com a vivacidade de um jovem de 20 anos. Vem de papilhon, como não poderia deixar de ser, e transborda entusiasmo: no seu discurso, na maneira como fala, na postura. É Médico, investigador, comunicador, simpático e atencioso. Os cartazes e livros que enchem o seu gabinete contam a sua história: 50 anos a ser o rosto da luta contra as doenças do coração e a voz do combate ao tabagismo.

- Como vão os corações dos Portugueses?
Muitas vezes vocês, comunicação social, citando-nos a nós, médicos, passam a ideia errada de que toda a gente morre de coração e que isto é um problema tremendo. E eu estou sempre a tentar introduzir um optimismo no meio disto. Embora eu ache que podemos morrer muito do coração, a verdade é que morremos cada vez menos com doenças coronárias. Temos melhorado gradualmente, mas espectacularmente ao longo dos anos. Esta melhoria está ligada ao facto de termos invadido a comunidade. Ou seja, ao princípio era quase criminoso um médico falar com a comunicação social, não era permitido falar com os jornais e eu vim da América com ideias novas, de uma grande ligação com os media. Se os bons médicos não falarem, outros irão falar, porque os doentes querem saber. Portanto, nos anos 70, passamos a ter uma relação aberta com as pessoas. Eu, depois de ser professor catedrático, já não me podiam dizer que eu queria era subir na carreira, portanto comecei a falar com as pessoas. E desde os anos 70, a mortalidade por doenças coronárias e isquémicas atingiu uma redução média de 50%.

Mas a taxa de mortalidade ainda é bastante alta…
Sim, mas quando as pessoas que não trabalham com números vão ver quantas pessoas morrem do coração em Portugal por ano e vêem que morrem quarenta e tal mil, pensam: “então é quase o mesmo número que há uns anos atrás”. Mas, quando se vai analisar os números melhor, dos quarenta e tal mil que morrem de coração 30 mil têm mais de 75 anos e antes morria-se aos 45, 50, 60… Portanto, a melhoria da mortalidade é uma coisa espectacular, na ordem dos 50% nestas décadas. As pessoas têm cuidado, os médicos têm mais cuidado, os centros de saúde estão mais atentos. E tudo conjugado faz com que se melhorem as condições gerais de saúde. As pessoas que vivem mais de 75 anos, que vão morrer aos 100 e depois, quando morrem é normal que seja por causa do coração. Se o coração não falhasse era normal que todos chegássemos aos 120, que é a minha pontaria. (risos)

- Portugal tem uma boa estratégia para a prevenção das doenças coronárias?
Eu como já sou velho posso dizer aquilo que quero… (risos) Eu sou do tempo em que não havia prevenção. Há muito tempo que ando nisto: há 50 anos. E na altura em que eu comecei com a prevenção pública começou a notar-se (e di-lo as estatísticas) uma diminuição das taxas de mortalidade por doenças do coração. Foi quando começamos a falar na televisão. Nesse tempo só havia um canal de televisão, e eu dava lições de 20 minutos sobre o coração, portanto toda a gente tinha de ouvir (risos). E as pessoas ou desligavam a televisão porque eu dizia “não fume” ou então viam. (risos) As pessoas começaram a compartilhar elas próprias a responsabilidade que tinham sobre si, sobre a sua saúde. Entretanto, o facto da direcção geral de saúde dizer “meçam a tensão a toda a gente” a toda a hora e de se chamar a atenção de que a hipertensão é o risco de doença mais evitável (antigamente era o tabaco) fez com que as pessoas estivessem mais conscientes das doenças do coração. Quando todos começaram a tomar consciência das medidas necessárias e tomado essas medidas tão banais como “pare de fumar, controle a tensão, controle o peso”, acabou por acontecer esta redução da mortalidade por coração.

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