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“O único brinquedo que não funciona aqui sou eu”  Enviar por email Imprimir

Susana Paula

Soldadinho, museu do brinquedo

Uma criança encosta o nariz ao vidro de uma prateleira de carros. O pai, ao lado, está parado e sorri. Um sorriso para dentro como são todos os verdadeiros sorrisos. Terá tido um carrinho igual? Talvez o único brinquedo que já teve. Não seria o primeiro. Pelo Museu do Brinquedo de Sintra passam visitantes que se comovem com os brinquedos expostos. Os mais simples.

Contam depois a João Arbués Moreira que aquele foi o único brinquedo que tiveram. O dono do museu, presidente da Fundação, faz lembrar o Principezinho. Capaz de se contentar com a caixa de cartão que guardava a ovelha. Capaz de maravilhar todos os que visitam o museu com mais uma das histórias que vai juntando no baú desde da década de 30.

Sintra é pano de fundo deste lugar de encantar. Bonecas, carrinhos, mobílias, soldadinhos, Barbies, maquetes, foguetões. Tudo cabe no espaço da imaginação. Os brinquedos que ontem eram motivo de diversão são agora parte da nossa história: através dos brinquedos assinalam-se épocas, revêem-se infâncias esquecidas.

O Museu do Brinquedo, um dos maiores do mundo, tem 20 anos. Nasceu do sonho de João Arbués Moreira. Um sonho plantado por um avô de conto de fadas que premiava os netos pelas más notas na escola.

No ponto mais alto do museu está a oficina dos brinquedos. João Arbués Moreira comove-se quando pensa que a cadeira de rodas e o braço imobilizado o impedem de concertar os brinquedos. No sotão do antigo quartel de bombeiros, João Arbués Moreira contou-nos as histórias das quais a sua mulher, Ana Moreira, também é personagem. Conhecendo as histórias tão bem quanto o marido, acabou por participar na entrevista.

Aos meninos que lhe perguntam porque não anda, o coleccionador responde que é porque não lhe deram corda. Mas ainda brinca e o sorriso mantém o brilho irrequieto de uma criança crescida.

- O seu avô dizia que as crianças deviam brincar em vez de estudar. Um professor seu dizia que os brinquedos caracterizavam uma época. Até que ponto estas influências foram determinantes para a criação do Museu do Brinquedo

João Arbués Moreira: O meu avô para além de dizer isso dava-me brinquedos quando eu era mais pequeno, quando chumbava nos testes. Não era normal as crianças terem tantos brinquedos. O nosso avô dava-nos muitos brinquedos mas nós estávamos sempre à espera dos brinquedos do José Rodrigues, o motorista. Uma vez o meu avô levou-nos a uma tourada e ele começou a dar-nos cavalos de todos os tamanhos. Ao fim da tarde íamos para casa e serrávamos a cabeça do touro com o chouffer a tocar corneta. Nas casas ao lado as pessoas iam para as janelas ver. Pensavam que era uma tourada a sério. Isto acabou quando um dia o meu pai estava à mesa e entra um vizinho para saber se naquele dia havia tourada (risos). E o meu pai disse que ali se acabava a história das touradas: “Porque eu quero estar descansado e não quero mais os meus filhos em touradas!”.

Sim, os brinquedos representam a época em que são feitos. E foram essas duas das principais razões para eu criar este museu, porque os brinquedos são muito importantes para mim.

- O Museu inclui também uma oficina de restauro, porque há brinquedos que são doados. Seguindo o exemplo do Hospital das Bonecas, também devia existir um Hospital do Brinquedo?

JAM: Sim. Há brinquedos que são oferecidos e por isso é que têm de ser restaurados. Antigamente era eu que os restaurava mas agora o único brinquedo que não funciona aqui sou eu. Há brinquedos que vêm em muito mau estado mas podem sempre ser restaurados.

Ana Moreira: Recebemos muita coisa mas não temos capacidade para restaurar tudo aquilo que recebemos. Por isso, ensinamos a restaurar.

- A paixão que tem pelos brinquedos levou-o a cedê-los a uma Fundação, a Fundação João Arbués Moreira. O seu objectivo era garantir que este trabalho não teria um fim?

JAM: Fiz um acordo com a Câmara Municipal para que o museu ficasse em Sintra. Sim, o objectivo era que o Museu não acabasse quando eu morresse. Os meus filhos, por exemplo, são alguns nomes na Fundação.

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