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De olhos postos no horizonte  Enviar por email Imprimir

Marco Silva

Gonçalo Cadilhe

São onze da manhã. Na estação do metro da Quinta das Conchas, um ruído ensurdecedor anuncia a chegada das composições. As portas abrem-se. Um rosto queimado pelo sol surge no meio da multidão. Olhos sonhadores. Ar descontraído. Gonçalo Cadilhe confundem-se entre os demais, na simplicidade de um passageiro que cumpre uma rotina diária. Com uma bolsa castanha gasta pelo tempo e roupas despojadas de símbolos e marcas, passa despercebido aos olhares dos transeuntes preocupados com as tropelias do quotidiano. O seu sorriso descontraído denuncia um percurso pessoal marcado por conquistas e vitórias. Cumprindo cada dia o seu sonho, Gonçalo aguarda ainda o dia em que a primeira e derradeira viagem se concretize.

Aos 39 anos de idade, Gonçalo Cadilhe é já um dos viajantes mais conhecidos em Portugal. O passaporte no bolso revela a estrada que Gonçalo deixou para trás das costas: da Patagónia ao Nepal, passando pelas Honduras e por Itália, percorreu os cinco continentes. Insaciável na sede de viajar, afirma contudo que ainda tem por descobrir um mundo inteiro.

Com mais de 12 mil exemplares das suas obras vendidas em território nacional, Gonçalo Cadilhe representa hoje um fenómeno de popularidade, um autêntico fenómeno de massas. Inaugurando um novo nicho de mercado ainda relativamente inexplorado em Portugal, abriu caminho à Literatura de Viagens. Mas de quem é, afinal, o rosto que sempre surge associado a mochilas volumosas, cenários exóticos ou populações indígenas dispersas pelo Globo?

Confrontado com as classificações de “escritor” ou “jornalista”, Gonçalo sente-se pouco à vontade. Homem simples e de poucas vaidades, prefere antes a comodidade da categoria de “viajante”. “Tenho a sorte de poder publicar em livro o que escrevo nos jornais”, afirma, contrariando a veleidade que se espera de uma figura mediática como Gonçalo. O jovem de simples traços que um dia foi continua vivo e de boa saúde.

Nascido e criado na Figueira da Foz, sonhou desde pequeno viajar pelo mundo a fazer surf – uma das suas grandes paixões, que se perpetuou ao longo da vida. Nos tempos em que lia as bandas-desenhadas de “Tintin” com volúpia, não pensava ainda na hipótese de algum dia se tornar um viajante-jornalista. Assim, e seguindo as orientações dadas pela família, enveredou por uma licenciatura que mais tarde o poderia tornar o “Dr. Cadilhe” (algo que Gonçalo hoje recorda com algum desdém).

Concluiu então o seu percurso académico com a licenciatura em Gestão de Empresas. Depois de sete meses a trabalhar na área de Marketing, apercebeu-se que tal trabalho em nada o realizava. Picar o ponto ou usar fato e gravata diariamente não eram rotinas desejadas pelo jovem inquieto. “Foi esse o grande momento de pressão e depressão que marcou a minha vida”, afirma Gonçalo. Com base naquilo que ele acreditava ser a “maturidade”, tomou então uma decisão que o conduziria aos lugares mais remotos do planeta. Despediu-se do emprego e procurou descobrir um novo rumo para a sua vida com a ajuda de uma bússola, trilhando novos caminhos por todo o Globo com a mochila às costas.

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