Maratona diplomática em Lisboa
Joana Machado Duarte

O dia 19 de Julho trouxe a Portugal alguns dos mais influentes diplomatas do mundo. A presidência portuguesa da União Europeia fez de Lisboa palco para a tomada de importantes decisões relativas aos problemas mais prementes da agenda internacional.
A maratona diplomática começa no Palácio das Necessidades e termina no Centro Cultural de Belém. Em todos os momentos um denominador comum, a presença de Luís Amado, chefe da diplomacia portuguesa.
9.15: Conferência com Luís Amado no Palácio das Necessidades
O ministro iniciou a sua declaração aos jornalistas com uma apreciação geral de “normalidade” das primeiras semanas da presidência portuguesa da União Europeia.
A nivel externo, o chefe da diplomacia portuguesa sublinhou a preocupação da presidência com a situação do Kosovo e do Médio Oriente.
Relativamente ao Kosovo, Luís Amado atentou na importância do relatório Ahtisaari para trilhar do caminho que levará à resolução do “capítulo mais preocupante da história da Europa nas últimas décadas”. A posição europeia será definida dia 23 mas para o ministro dos Negócios Estrangeiros português o mais importante é que essa posição seja coesa uma vez que o futuro do Kosovo poderá servir de referência para outros Estados. “A União Europeia deve ser o catalizador para a paz e estabilidade na Europa.”
O Médio Oriente foi um ponto de discussão fundamental em todos os debates e conferências do dia. Luís Amado defendeu que a reunião do Quarteto poderia dar um impulso à resolução do problema. Na origem da confiança do chefe da diplomacia portuguesa está o facto de esta ser a primeira vez que Blair toma parte nas conversações e também porque a reunião tem lugar na semana em que Bush fez um importante discurso relativo ao Médio Oriente. Luís Amado defende para a Europa um papel de equilíbrio face aos Estado Unidos na questão Israelo-palestinana. “O problema do Médio Oriente é um problema de toda a comunidade intencional (…)”
Durante a conferência foi feita ainda referência ao continente africano, aos seus problemas e ao papel que a União Europeia deve ter relativamente aos conflitos que marcam a actualidade. “O importante para mim não que a EU fale a uma só voz mas que decida a uma só voz”.
Para terminar, Luís Amado fez ainda referência ao texto do Tratado afirmando que os trabalhos decorrem dentro do previsto e que alguns problemas detectados serão resolvidos brevemente.
11.45: Conferência com ministro dos Negócios Estrangeiros Sérvio no Palácio
Depois do encontro com o ministro dos Negócios Estrangeiros sérvio, Vuk Jeremic, Luís Amado sublinhou que a UE é favorável à rápida resolução do problema do Kosovo através de uma solução que promova a estabilidade na região.

O ministro dos Negócios Estrangeiros sérvio salientou a importância de uma parceria estratégica com a União Europeia e mostrou-se satisfeito com o empenhamento europeu na questão do Kosovo que acredita estar resolvida até ao final deste ano. Vuk Jeremic defendeu que a solução terá de ser um compromisso que satisfaça todas as partes. Relativamente à ideia de “trade-off” em que a Sérvia devia optar entre a entrada na UE ou a soberania no Kosovo, o ministro sérvio declarou que essa é uma escolha impossível. Já ao início da manhã Luís Amado tinha afirmado que essa exigência nunca seria feita.
Quando confrontado com as declarações de Condoleezza Rice, que afirmou que o Kosovo será independente “de uma maneira ou de outra”, Vuk Jeremic respondeu que “Uma solução de compromisso não é a independência do Kosovo porque esta solução não satisfaz a Sérvia.” Apesar de discordar neste ponto com a secretária de estado norte-americana, o MNE sérvio mostrou-se disponível para cooperar com os EUA na procura de uma solução “que promova a estabilização da região e não o contrário”.
14.00: Conferência com Condoleezza Rice no Palácio
A reunião de Condoleezza Rice e Luís Amado centrou-se nos temas que mais preocupam as agendas politicas na actualidade. Relações bilaterais, reunião do quarteto, processo de paz no Médio Oriente, África e Kosovo. Na origem de alguns pontos do debate estiveram as declarações recentes de Bush relativamente ao Médio Oriente.
Luís Amado sublinhou o importante papel que as relações UE/EUA assumem neste contexto. “O entendimento transatlântico é fundamental para a paz e para a estabilidade mundial”.

Condoleezza Rice congratulou Portugal pela presidência da União Europeia e atentou nas responsabilidades que esta posição acarreta. Para a secretária de estado norte-americana, estas relações bilaterais são sinónimo não só de responsabilidade como de oportunidade. Neste âmbito inserem-se principalmente as relações com o continente africano. No que diz respeito à problemática situação dos Balcãs, Condoleezza reiterou a posição norte-americana de promoção da independência da região. As duas potências reafirmaram o desejo de cooperar na procura de soluções para os principais assuntos da agenda mundial. “Somos fortes aliados mas acima de tudo partilhamos valores.”
A secretária de estado norte americana manifestou-se ainda, em resposta a um jornalista, relativamente à tensão entre o Reino Unido e a Rússia. Condoleezza Rice afirmou que esta é uma “questão simples”. O crime ocorreu em Inglaterra pelo que é nesse pais que deve ser julgado.
20h15: Conferência do Quarteto no CCB
O encontro mais esperado realizou-se ao final do dia no Centro Cultural de Belém. Na reunião do quarteto encontraram-se o ministro dos Negócios Estrangeiros português, Luís Amado, o seu homólogo russo, Sergei Lavrov, a Secretária de Estado norte-americana, Condoleezza Rice, o Secretário-Geral das Nações Unidas, Ban Ki-Moon, a Comissária europeia para as Relações Externas, Benita Ferrero-Waldner, o Alto Representante da UE para a Política Externa, Javier Solana e o recém-empossado enviado do Quarteto para o Médio Oriente, Tony Blair.

No final, em conferência de imprensa, foram destacadas as principais conclusões da reunião. Os diplomatas reforçaram o objectivo de definir uma solução para o conflito israelo-árabe assente na criação de dois estados estáveis e sólidos. Nas palavras de Ban Ki-Moon, o Quarteto considera que a paz só será possível através do “estabelecimento de um Estado palestiniano independente, democrático e viável, vivendo lado-a-lado com Israel em paz e segura”.
As declarações George W. Bush em relação à convocação de uma conferência internacional de paz foram também saudadas pelo Quarteto que confirmou a realização desta conferência.
O final do dia trouxe o reforço de posições e novas perspectivas para problemas que são comuns a todos os diplomatas que se encontraram em Lisboa.
Na conferência de imprensa da manhã um jornalista perguntou a Luís Amado se iria propôr que a Conferencia Internacional avançada por Bush (e entretanto confirmada pelo Quarteto) se realizasse em Portugal. Será de esperar uma nova maratona diplomática em Lisboa?
Com Marco Silva
Fotos: Portugal.gov, Ekapija , Venezuelanalysis, Associated Press
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