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Joana Machado Duarte

paula rêgo

Há quem seja bom em tecnologias, há quem seja bom em manufacturas, há quem seja bom a fazer tapetes persas. Há quem seja bom a fazer tudo, há quem não seja bom a fazer nada e há quem seja bom a queixar-se por tudo e por nada. Estes são os portugueses. E os números confirmam-no. Somos 10.529.255 milhões (INE, Censos 2001) logo, 21.058.510 milhões de queixosos.

Isto porque nos queixamos sempre a dobrar. Queixamo-nos por nós e pelos vizinhos (deve mesmo ser a única coisa que fazemos pelo Próximo), pelo frio e pelo calor. Criticamos quem se queixa e maldizemos numa mal disfarçada raiva invejosa quem não o faz…

O Carlos Tê descreveu-nos em poucas palavras. Chamou à canção “de Alterne” talvez porque nos vendemos segundo a maré, talvez porque já não haja maré que nos queira comprar. E nós aqui oferecidos. Talvez.

Rui Veloso / Carlos Tê – Canção De Alterne

Pára de chorar
E dizer que nunca mais vais ser feliz
Não há ninguém a conspirar
Para fazer destinos negros de raiz
Pára de chorar
Não ligues a quem diz
Que há nos astros o poder
De marcar alguém só por prazer
Por isso pára de chorar
Carrega no batom, abusa do verniz
Põe os pontos nos is
Nem Deus tem o dom
De escolher quem vai ser feliz.

Pára de sorrir
E exibir a tua felicidade
Só por leviandade se pode sorrir assim
Num estado de graça
Que até ofende quem passa
Como se não haja queda no Universo
E a vida seja moeda sem reverso
Por isso pára de sorrir
Não abuses dessa hora
Ela pode atrair o ciúme e a inveja
Tu não perdes pela demora
E a seguir tudo se evapora.

Devemos estar tristes para cativar a pena alheia. Criticamos quem ousa erguer a cabeça num país que devia ser de lamento, de exaltação do que é feito “fora de Portugal”. Para não saborear o que temos, para não investir, criar, avançar, desculpamo-nos com um pervertido negro sentimento de saudade salpicado de sebastianismo. A saudade que a par do fado é na nossa desculpa para não sorrir. “Ó gente da minha terra, agora é eu percebi. Esta tristeza que trago foi de vós que a recebi.” Uma tristeza que se perpetua como se o fado nos fadasse a vida para a desgraça. Nem a Casa da Mariquinhas com as suas tabuinhas nos faz despontar o sorriso.

mariza

Há que ser grave. Intelectualmente grave. Isso e fazer apelo aos mortos. Seres sérios e perfeitos agora que ninguém é vivo para contar os percevejos que tinham debaixo da almofada. Os mortos e as línguas mortas sinónimos de perfeição.

Quando a perfeição deve ser uma luta muitos de nós continuam a pensar que não vale a pena. Um misto de gabarolice explosiva com uma submissão tristonha não nos faz caiminhar em frente. Orgulhamo-nos apenas daquilo que mostramos aos outros. Temos de começar a orgulharmo-nos do que podemos fazer por nos próprios.

Fotos / Pintura: Mariza e Paula Rêgo (exemplos que admiro)


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