Com Letras e Películas
Ana Sofia Covas

Vai agora a caminho dos 33 anos. Nasceu a 14 de Julho de 1974, no Porto, mas cedo veio para Lisboa, onde actualmente vive, no Chiado. É o filho mais velho do falecido líder do CDS Francisco Lucas Pires e da jurista Teresa Almeida Garrett. Do antepassado Almeida Garrett, arrisco-me a dizer, terá herdado a ‘queda’ para a escrita, o ‘bichinho das letras’. Escreve contos, romances, teatro, argumentos para cinema. Realiza curtas-metragens e a primeira longa-metragem chegará em breve. Chama-se Jacinto Lucas Pires.
Jacinto Lucas Pires é, em duas palavras, literário e cinematográfico – desde a forma como escreve até à forma como fala. Os seus principais interesses são precisamente a escrita e o cinema. Mas há outros para além destes, naquele que é um escritor e cineasta apreciado por muitos (e não só pelas suas vertentes artísticas). O gosto pela escrita surgiu cedo, tal como o gosto pelo cinema. Para além disso, dedica-se à música nos tempos livres. É, em suma, um homem que procura explorar vários territórios, sem, no entanto, descurar quem o rodeia.
A visão da família e dos amigos. O começo. A escrita, o cinema e outros talentos
A 14 de Julho de 1974, no Porto, nascia Jacinto Lucas Pires. «Talvez como todos os primogénitos, foi um bebé que se fazia notar… Difícil para adormecer (quantos passeios de carro…), esfomeado ao acordar (exigindo o cuidado de duas pessoas, antes que alguém da família fosse acusado de violência infantil pela vizinhança…) … Numa fórmula simpática, era um bebé cheio de personalidade», conta a mãe, Teresa Almeida Garrett. «Mas», continua, «correspondendo à teoria de que ‘bebé difícil dá criança encantadora’, o Jacinto transformou-se, a partir do 1.º ano, numa criança calma, simpática, curiosa, sociável, que gostava de brincar com os outros meninos – mas também se entretinha muito bem sozinho».
O ‘Jacinto pequenino’ fez a pré-primária e a primária num colégio na Estrela, O Nosso Jardim, para onde entrou ainda com dois anos. Sobre esta etapa, o escritor e cineasta não hesita em dizer: «Foi um privilégio, tive a melhor educação possível, guardo óptimas recordações». De seguida, ‘mudou-se’ para o colégio S. João de Brito, no Lumiar, onde estranhou «um pouco a diferença de escala». No entanto, diz que logo aprendeu a sentir-se «em casa». Segundo a mãe, nesta etapa foi um «bom aluno, interessado e cumpridor». «Desde pequeno, sempre gostou muito de ler», conta a mãe, que recorda um episódio: «Se a memória não me engana (em data e em filho) julgo que no 4º ano dinamizou o seu grupo de colegas com uma peça de teatro da sua autoria!»
Enquanto esteve no S. João de Brito, Jacinto praticou desporto, essencialmente basquetebol e futebol. Pelo meio, aprendeu a tocar viola. Desta surgiu o gosto pela música: «Comecei a fazer canções com um amigo, o Tomás Cunha Ferreira. Hoje sou escritor e ele pintor, mas juntos temos uma ‘banda-à-paisana’ chamada Quais. Um dia ainda seremos um desses fenómenos MySpace!», diz, com humor.
Tomás, o seu amigo e companheiro da banda Quais, conta que esta surgiu a partir do sonho que ambos tinham de fazer música. Tocam «voz e violão», diz Tomás, naquela que será música portuguesa «apenas por uma questão de língua, isto porque a música em si é uma linguagem universal, sem país». As influências vão desde os The Beatles a Amália, passando por Stevie Wonder, Vitorino ou Caetano Veloso. Quanto a episódios curiosos, Tomás recorda uma vez em que fizeram «uma espécie de serenata ao Vitorino, depois de um concerto dele no Coliseu. Fomos ao camarim e cantámos uma canção do próprio Vitorino que começava assim: ‘Se tu queres ser o meu amor, dá-me cá os braços teus…’. Acho que as pessoas que lá estavam nos acharam um pouco loucos, mas parece que o Vitorino gostou. Cantámos, declarámos o nosso amor, e fomos embora!», recorda.
Quanto aos tempos no S. João de Brito, Jacinto e Tomás iam ao cinema, jogavam futebol, escreviam canções e tinham para si referências variadas: «gostávamos do Eugénio de Andrade, do Caetano e do Chico, e do Jean-Luc Goddard. Tal e qual como hoje. Das duas uma: ou não mudámos, ou mudámos juntos. A segunda alternativa é mais provável.» «O Jacinto era capaz de amar igualmente uma partida de pingue-pongue e um poema do E. E. Cummings…», recorda Tomás. «Não é que ele não visse diferenças e contradições entre as coisas, ele conseguia era pô-las a falar umas com as outras, e depois escrevia, ou cantava, ou filmava. Como hoje.»
Corre o ano de 1992 quando Jacinto chega ao curso de Direito da Universidade Católica Portuguesa. Entrou para lá achando que «era mesmo aquilo que queria». No entanto, não esquece que a mãe sempre lhe disse que não era aquele o caminho que devia seguir: «conhecia-me melhor do que eu, se calhar (risos)!». Os pais eram ambos de Direito, mas não escolheu o curso «por uma espécie de ‘obrigação familiar’», garante. A mãe lembra que Jacinto teve «uma relação difícil» com o curso. «O Jacinto não tinha dúvidas quanto à falta de vocação estritamente jurídica, e por outro lado tinha muitas dúvidas sobre o interesse e a utilidade de ter uma formação universitária clássica», diz Teresa Almeida Garrett. E continua: «Ganhou a ideia do esforço, da disciplina, de levar os compromissos até ao fim, mas, de facto, não se ganhou um jurista…».
A paixão pela escrita surge, quem sabe, por entre os livros de Direito. Em 1996, quando ainda está a tirar o curso (que termina em 1997), publica o primeiro livro, ‘Para averiguar do seu grau de pureza’. Daí surgiu ‘aquele momento’ da sua carreira: «Ver o primeiro livro exposto, na livraria, na montra. Isso é um momento espantoso… É uma sensação de começo, de maturação!», diz. Este primeiro livro é um conjunto de contos que lhe mereceu um prémio e que lhe proporcionou um momento irrepetível. (vide caixa na última página).
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