José Luís Peixoto. Perfil.
Joana Fernandes
Ele é um sorriso. Um artigo definido. Uma promessa cumprida letra por letra, ponto por ponto, em livro. Em livros. Na música. Nos palcos. Pelo mundo. A singularidade das letras que arruma em estórias já não ecoa só aqui. Escreve livros que chegam para lá das fronteiras. E escreve como quem respira: sem conseguir parar. Os amigos dizem-no fiel, atencioso, directo e franco. José Luís Peixoto é um olhar tímido. Um esgar de simpatia. É uma caneta itinerante. De perfil, uma viagem no alentejano de olhos no mundo.
Em retrato, pela sua mão.
Hoje, dia 2 de Junho de 2007, tenho 32 anos, 8 meses e 29 dias. Além disso, tenho 10 piercings, 3 tatuagens e, muito normalmente, 1 sorriso.
Desde sempre que tenho o cabelo aos caracóis. Durante a adolescência, quando tinha o cabelo comprido, amaldiçoava os caracóis. Culpava-os do trabalho que dava manter o cabelo decente. Antes e depois desse período, nunca tive qualquer espécie de problemas com o meu cabelo, apesar das suas limitações naturais. Nos últimos dois anos, começaram a despontar multidões de cabelos brancos. Atribuo essa mudança súbita às poucas horas de sono e aos sonos inconstantes durante a escrita do meu romance Cemitério de Pianos, mas estou pronto a aceitar que isso não tenha nenhuma ligação. O que é certo é que, agora, tenho uma madeixa de cabelos brancos à frente. Tenho de me habituar a essa realidade. Não creio que alguma vez vá pintar o cabelo.
Acho que tenho uma testa grande. A minha irmã mais nova também. Os meus filhos também. Tenho os olhos verdes. A minha irmã mais velha costumava dizer que são da cor do mato. Creio que isso terá a ver com a mistura dos olhos do meu pai (muito claros, azul quase cinzento) e da minha mãe (castanho-castanho). As minhas irmãs e as minhas sobrinhas ficaram com olhos da cor do mar, eu e o meu filho mais velho ficámos com olhos desta cor. Tenho uma cicatriz na sobrancelha esquerda, resultante de uma queda que dei quando tinha um ano. Levei um ponto. Na época, as minhas irmãs deviam estar a tomar conta de mim e, por isso, ficaram com um ligeiro sentimento de culpa. Eu, no entanto, gosto da minha pequena cicatriz. Tenho um nariz abatatado, parecido com o da minha irmã mais velha. As minhas narinas são enormes. Apesar disso, o meu olfacto não as acompanha. Em muitas ocasiões me elogiaram os lábios. Relativizei sempre esses elogios porque me pareceu ser o tipo de coisas que as pessoas dizem quando estão apaixonadas. Ainda assim, estou feliz com eles. Tenho uma dentição invulgar, caninos muito bicudos. Recusei-me sempre a usar aparelho e continuarei a fazê-lo. Gosto da disposição pouco usual dos meus dentes, onde, apesar de tudo, encontro simetria.
Nunca tive peso acima da média, embora, ultimamente, esteja quase lá. Justifico a propensão para a magreza pela herança familiar. O meu pai contava sempre a forma como, na inspecção militar, com 19 anos, apenas pesava 50 quilos. Todos os meus tios eram e são magros. Justifico o aumento de peso dos últimos anos com a grande inactividade de ficar sentado durante horas e dias, semanas, sem sair de casa, e com a passagem da fronteira dos 30 anos. Tenho muito poucos cabelos no peito (mais ou menos uma dúzia). Tenho os músculos das pernas desenvolvidos por 10 anos de atletismo de competição na infância e na adolescência. Calço o número 43 e tenho o segundo dedo do pé mais comprido do que o primeiro.

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