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A arquitectura da humanidade  Enviar por email Imprimir

Joana Azevedo Viana

Reconstruir

E se a resposta a crises humanitárias estivesse na arquitectura? Cameron Sinclair e Kate Stohr podem ter descoberto o como. Está em marcha a (re)invenção de uma nova aplicação arquitectónica.

Arquitectura e design não são brincadeiras. E, para os mais distraídos, devem ser, antes de serem arte, uma funcionalidade aplicada, e bem aplicada, nas sociedades.

Disse Le Corbusier, em 1923: “O equilíbrio da sociedade resume-se a uma questão de construção. Deparamo-nos com estas alternativas justificáveis: arquitectura ou revolução. E a revolução é evitável.” Contudo, acções nem vê-las. Até 1999, ano em que Cameron Sinclair e Kate Stohr fundaram o projecto Architecture for Humanity, quando o horizonte pareceu começar a ficar progressivamente menos negro.
O conceito base do seu projecto é o de design industrial, um design virado para a esquematização e aplicação de projectos na resolução de problemas tangíveis, que foge à arte; um design com um papel activo num processo de modernização, problema que, referia já Maldonado em 76, “não diz respeito apenas aos países do Terceiro Mundo, mas também às bolsas de subdesenvolvimento existentes nos países industrializados”.

Arquitectura humanitária: uma novidade?

O conceito de aplicação da arquitectura e do design em zonas economicamente atrasadas não é de agora. Na década de 20, durante o boom do design e da arquitectura enquanto artes de valor, e aquando do surgimento de uma das mais famosas (e eternizadas) escolas de arquitectura e design, a Bauhaus, Le Corbusier não foi o único a referir o equilíbrio social como o resultado a ser atingido pela aplicação de conhecimentos arquitectónicos.

Esta é a verdade: o conceito de “arquitectura humanitária” não é uma novidade. E se há prova disso, revisite-se a década de 70.

Foi na década de 70 que destemidamente se desenrolou um consciencializar do papel fundamental que a arquitectura e o design poderiam desempenhar na melhoria significativa das condições de vida das populações dos países periféricos.

Gui Bonsiepe, um designer que teorizou sobre design em países periféricos, teve uma importância extrema neste contexto; ele foi a alavanca oleada deste processo.

Licenciada em arquitectura e mestra em História da Arte, Leonor Ferrão, actualmente a doutorar-se em História da Arte e a leccionar design na Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa por ser essa a sua “verdadeira paixão”, tem um dizer acerca deste assunto: “O que ele [Bonsiepe] faz é um diagnóstico do que considera ser a situação dos países da América Latina, nomeadamente no Chile e no Brasil. Ele foi um dos famosos percursores da famosa Escola de Design de Ulm e, quando a escola fechou, em 68, em vez de ficar no seu recanto confortável, num país bem desenvolvido economicamente como o era, e é, a Alemanha, enveredou por um caminho inexorável para o progresso dos chamados países periféricos, onde havia diferenças muito grandes e distantes de um ponto de vista geográfico.” E continua. “É em clima de grande entusiasmo, que por via de políticas de esquerda— uma esquerda radical, mas uma esquerda enfrentada como solução para muitos problemas— Bonsiepe vai desenvolver uma perspectiva de design que ajudaria aqueles países a sair dessa situação de calamidade.”

Estas diferenças económico-sociais entre os países desenvolvidos e os subdesenvolvidos são hoje, mais do que nunca, do conhecimento geral. E quanto a isso, Leonor conta que “o que tornava a situação absurda era que estes países periféricos eram riquíssimos em matérias-primas abundantes e valiosas e em recursos humanos; o problema é que exportavam esses recursos, não os transformavam no local, importando depois produtos feitos nos países industrializados a partir do que haviam exportado, e pagando os acréscimos de produção.”

Bonsiepe referia a modernização como o instrumento por excelência para acabar com os desequilíbrios dos países periféricos. “Ele acreditava que era por via da industrialização que os países ganhariam condições de vida, mas— e este será talvez o único ponto em que podemos discordar dele— nenhuma sociedade se transforma completamente por via da industrialização e da transformação económica.”

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