Putin em Portugal: uma cimeira, dois livros, um filme
Joana Machado Duarte

No passado dia 26 Mafra foi palco da Cimeira União Europeia/Rússia. O primeiro-ministro português e actual presidente da UE, José Sócrates, afirmou que foram dados passos importantes para a aproximação entre os dois blocos. Esta foi a última cimeira em que Vladimir Putin participou na qualidade de presidente russo uma vez que abandona o cargo nas presidenciais russas de Março de 2008.
Em Portugal durante o mês de Outubro Putin foi o centro da Cimeira UE/Rússia, dos livros criticos da sua “democracia soberana” e ainda do filme “Rebellion: The Litvinenko case” que estreou no nosso país no DocLisboa, no passado Sábado (27).
A Cimeira
O dia ficou marcado pela assinatura de dois acordos entre a União Europeia e a Rússia relativos às importações de produtos de aço e ao combate ao tráfico de estupefacientes. Houve ainda tempo para o indispensável almoço e para algumas visitas pelo Palácio de Mafra. José Sócrates, Vladimir Putin e Durão Barroso visitaram a exposição «A Rússia na Biblioteca do Real Paço de Mafra».
O Palácio-Convento de Mafra é uma obra de D.João V numa altura em que o ouro do Brasil sobejava na corte. A morada de férias do rei e convento franciscano bem como toda a vila em redor vestiram-se a rigor para receber a 20º Cimeira UE/Rússia. As ruas foram arranjadas e as estradas circundantes interditas ao trânsito. A pompa da comitiva teve honras de fechar parte da A8 e pelas aldeias que antecedem a vila de Mafra e por onde o cortejo passou passeavam policias fortemente armados.
Na conferência de imprensa que encerrou o encontro o trio juntou-se a Javier Solana, Alto Representante para as Relações Externas da EU. José Sócrates mostrou-se satisfeito ao afirmar que esta “Foi uma Cimeira construtiva, positiva, que permitiu avanços. Foi uma Cimeira de trabalho, de bom trabalho.” Vladimir Putin agradeceu a Portugal a “cimeira brilhante” em que tomou parte. “A presença em Lisboa de tantos funcionários prejudicou a vida dos seus habitantes, mas valeu a pena, porque conseguimos chegar a um acordo quanto ao que tem de ser feito”.

De acordo com a analista Lilia Chevtsova, citada pelo Público, a “democracia soberana” russa tem um discurso anti-ocidente enquanto forma de justificar os seus próprios problemas e não será com Putin à frente dos destinos da Rússia que o entendimento entre os dois blocos será uma realidade.
“A razão chave que está por trás da crise é o fracasso do projecto liberal pós-soviético e o regresso a um Estado hipercentralizado. Para justificar esta viragem, a elite política necessita de um inimigo. (…) A elite russa não encara o Ocidente como uma ameaça real, mas descreve deliberadamente o Ocidente como um “papão” por necessidades domésticas.” Por isso, “não é de esperar que as relações entre a Rússia e o Ocidente possam ser normalizadas na era de Putin”.
O próximo encontro UE/Rússia terá lugar a 1 de Janeiro do próximo ano aquando da presidência eslovena da União Europeia.
Litvinenko e um clima de guerra a baixas temperaturas
Depois de no passado mês de Junho Londres e Moscovo terem enfrentado um clima de grande tensão um porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros afirma que “Os laços entre os dois países continuam muito fortes”. Na origem da tensão esteve a recusa russa em extraditar Andrei Lugovoi, principal suspeito do homicídio de Alexander Litvinenko. Ainda de acordo com o MNE britânico “A Rússia é um actor importante num conjunto de assuntos de interesse mútuo, como o Irão e o Kosovo (…) Não é segredo que existem assuntos em que discordamos, nós dizemo-lo honestamente e discutimos isso”
No que diz respeito às dùvidas que surgiram esta semana relativamente a um clima de tensão que pudesse afectar a cimeira UE/Rússia, Inglaterra é peremptória em negar rumores de uma nova “guerra-fria”. Em declarações à Lusa o mesmo porta-voz garantiu que o governo britânico espera que sejam discutidos temas importantes como a energia, as alterações climáticas, o comércio, os direitos humanos e a democracia.
Recorde-se que Litvinenko, antigo elemento dos serviços secretos russos KGB, foi envenenado com polónio 210 na cidade de Londres supostamente depois de ter denunciado as acções ilegais da FSB (ex. KGB). A polícia britânica identificou Lugovoi, também ex-KGB, como suspeito e pediu a sua extradição ao governo russo que imediatamente a negou dando início a uma tumultuosa crise diplomática.
Actualmente Andrei Lugovoi encontra-se em liberdade e é candidato ao parlamento russo pelo partido de Putin.
Um mês, dois livros de oposição a Vladimir Putin
- A Morte de um Dissidente -
No passado dia 28 Marina Litvinenko e Alex Goldfarb deram uma conferência de imprensa no hotel da Lapa em Lisboa. O pretexto foi o lançamento do livro “A Morte de um Dissidente” mas durante a conferência foram feitos apelos à União Europeia para que seja “solidária” com a Grã-bretanha no pedido de extradição de Andrei Lugovoi.

A viúva de Litvinenko e Goldfarb dirigiram ainda fortes críticas à realização da Cimeira UE/Rússia. “Num castelo, líderes do mundo juntam-se para discutir questões internacionais, e pessoas que vêm de longe gritam “assassínio, veneno, justiça (…) Poderia ser uma tragédia de Shakespeare.” Marina afirmou que em causa está muito mais que um assassinato. “Não se trata apenas do assassínio do meu marido (…) É algo que põe muitas questões, o uso de material radioactivo para um assassínio no centro de Londres”. Goldfarb, amigo do ex-KGB assassinado, garante que esta não é uma questão pessoal. “Um assassínio com uma arma nuclear, numa grande cidade europeia, com apoio do Estado - é uma questão de segurança. E se os países livres insistirem numa atitude de “appeasement”, irão colher os resultados mais tarde.”
- Diário Russo -
O livro de Anna Politkovskaya foi apresentado no passado dia 11 de Outubro por José Pacheco Pereira e José Manuel Fernandes. Este é um diário que relata o período entre as eleições parlamentares russas de Dezembro de 2003, o terrível resultado do cerco à escola de Beslan em 2005, a revolução na Ucrânia e a demanda da Chechénia.
A jornalista, grande critica de Putin, foi assassinada à porta de sua casa no dia 7 de Outubro de 2006 poucos dias depois de terminar de escrever o livro.

Segundo Catarina Almeida (Bertrand Editora), “Politkovskaya denuncia as circunstâncias nada democráticas em que o presidente Putin foi reeleito, o silenciamento da imprensa, a neutralização dos partidos da oposição, bem como a incapacidade dos liberais e democratas para formar uma oposição unida e eficaz, e a lentidão com que a população russa contesta os ultrajes legislativos do governo. Face à tirania da governação levada a cabo por Vladimir Putin, refere Anna Politkovskaya, os governantes ocidentais continuam a prestar-lhe homenagem.”
DocLisboa: “Bunt. Delo Litvinenko”
“Rebellion: The Litvinenko case”, o documentário de Andrei Nekrasov usa o assassinato Alexander Litvinenko como forma de abordar e denunciar a politica de medo levada a cabo por Vladimir Putin. Transmitido dia 27 de Outubro no Festival DocLisboa, o filme conta com entrevistas a Litvinenko e a Anna Politkovskaya. Segundo o próprio, o filme não tem qualquer objectivo de imparcialidade. Visa denunciar uma politica condenada por Nekrasov e que tem custado a vida a muitas vozes criticas do regime de Putin na Rússia.

“No final dos anos 90, comecei a dar-me conta de que algo ocorria mal no meu país e que tinha de o documentar”, afirmou o cineasta em entrevista à EFE. “Com as explosões de 1999, entramos numa nova era na Rússia”, lembrou Andrei Nekrasov referindo-se ao atentado que destruiu dois edifícios em Moscovo, e que, segundo Litvinenko, foi perpetrado pelos serviços secretos russos para justificar a guerra na Chechénia.
“A denúncia transformou Litvinenko numa pessoa de destaque e estabeleci como meta pessoal segui-lo e entrevistá-lo sobre os atentados, que eram o motivo original do documentário”, acrescentou Nekrasov.
Nekrasov sublinhou que o objectivo do filme não é apontar culpados mas “contribuir para a resolução do caso, explicando o contexto e a situação”.
O filme estreou no festival de Cannes a 26 de Maio de 2007 rodeado de muito secretismo e um grande aparato de segurança.
Com: Lusa, Público, RTP, EFE
Fotos: tendenzeonline.info, Ria Novosti, Reuters.
Artigos relacionados:


