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Joana Machado Duarte

 joao pedro pais mafalda veiga

A sala está vazia mas o palco está cheio. Nas colunas espalhadas pelo pavilhão ecoam gargalhadas e sorrisos murmurados. Em cena está uma dupla, melhor, um par de amigos a conversar. Conversam mas podiam estar calados porque a cumplicidade que os une quebra a barreira do som. Nos ensaios de mais um espectáculo de Mafalda Veiga e João Pedro Pais canta-se em sintonia, canta-se Lado a Lado.

Lado a Lado é o nome de um projecto e de um CD que uniu Mafalda Veiga e João Pedro Pais. Durante este ano a dupla deu concertos com casa cheia por todo o país. Destacam os que fizeram nos coliseus de Lisboa e Porto onde subiram também ao palco Jorge Palma, José Mário Branco e Fausto. Em 2008 Mafalda Veiga e João Pedro Pais vão dar continuidade ao seu trabalho a solo. Garantem, no entanto, que estas serão noites para recordar.

“Esta uma noite para me lembrar
Que há qualquer coisa infinita como um firmamento
Um sorriso, um abraço
Que transcende o tempo”
(Mafalda Veiga)

O vosso editor [Francisco Vasconcelos] afirmou que no decorrer do concerto no Olga Cadaval apercebeu-se de que o resultado não era a simples soma das partes e que ao talento individual de ambos se juntava uma nova dimensão. Conseguem identificar esta nova dimensão?

Mafalda Veiga: É a dimensão de qualquer projecto que envolva duas ideias ou mais como outros projectos de pareceria que já existiram, por exemplo, os Rio Grande. Acho que acontece sempre que um projecto envolve mais do que um universo, quando há uma partilha de ideias, visões e de maneiras de estar nas coisas. Não é só na música mas na sensibilidade da abordagem de todas as coisas que nos envolvem… Há qualquer coisa que é um acréscimo àquilo que somos só cada um de nós.

João Pedro Pais: É isso (risos). Quando se constrói um projecto a dois tem-se como objectivo chegar o mais longe possível. Para mim isso é cantar aquilo de que gostamos e partilhar o palco com quem gostamos e isso foi atingido. Chegámos aos Coliseus, conseguimos ter no palco connosco os três maiores ‘canta-autores’ portugueses.

Foi essencial para vocês homenagearem de certa forma os autores que escrevem em português? [”Foi por ela” de Fausto, e “Aqui dentro de casa” de José Mário Branco, “Paciência” de Lenine]?

MV: Foi extremamente emocionante poder homenagear pessoas que são uma referência para nós como autores e como compositores. Não só gostamos das canções mas são pessoas que admiramos.

O Lenine não pode estar nos Coliseus porque estava em tournée na América Latina. O Zé Mário e o Fausto foram de uma simpatia enorme e além dos Coliseus a experiência de ensaiar com eles foi extremamente emocionante. Preparar os temas com eles foi uma experiência muito bonita e muito enriquecedora para nós. E ter o Jorge também. Ter três ‘canta-autores’ que são referências para nós e para quaisquer músicos em Portugal foi qualquer coisa de inesquecível. Foi muito bom.

O que é que pensam da música portuguesa na actualidade?

MV: Nós temos uma música extremamente diversificada. No âmbito europeu é das músicas de que mais gosto. Nós temos coisas interessantíssimas… Temos é muito pouco poder de divulgação. E muito pouco poder de exportação da nossa música.

JPP: As pessoas não podem contar só com a música que passa nas rádios. Há musica que não passa e que é muito boa. Nós temos cá em Portugal a musica mirandesa tradicional, de Trás-os-Montes… E nós quando falamos sobre música falamos daquilo que passa, mais popular, mais óbvio, que chega mais às pessoas. Há coisas por aí escondidas e bons miúdos a fazer música que não chegam as pessoas.

Cada um levou parte da sua banda. Como foi unir pessoas e estilos diferentes num projecto comum?

MV: Foi fantástico e temos de lhes agradecer o que é o Lado a Lado também. Eles estiveram lado e lado connosco neste projecto no sentido mais amplo. A dar-nos todo o apoio! Foi muito bom podermos partilhar estes dois universos assim.

Para além dos músicos das bandas temos um músico convidado que só faz parte do lado e lado que é o Máximo Cavalli. Foi chamado depois para a gravação do disco porque não fez o Olga Cadaval. Ele faz muito bem arco e acho que algumas coisas ganharam uma dimensão mais poética com a presença dele o que foi muito bom.

mafalda veiga e joao pedro pais

A Mafalda disse em entrevista ao DN que “O disco tem uma coisa de que eu gosto muito, porque não é um trabalho do ‘agora canto eu’ e depois cantas tu”. Como é que se organizam então?

JPP: Tem de haver harmonia. Tem de haver um encontro de vozes sem nos atropelarmos o que é o mais difícil porque eu e a Mafalda não temos a mesma tonalidade.

MV: Essa foi uma questão que obrigou a um abordagem das coisas diferente. Mas foi bom, ainda bem! (risos)

JPP: No princípio era mais difícil, hoje torna-se mais fácil. Agora as coisas saem de uma maneira mais fluída. No princípio tinha mais medo. Agora já sei o que tenho de fazer (risos).

MV: Nós chegámos aos Coliseus com uma rodagem fantástica. Foram concertos que eu não vou esquecer. Foram mesmo qualquer coisa de muito emocionante. Não só pelos nossos convidados mas também pelo projecto porque acho que resultou em cheio. Foi muito bom, tanto no Porto como em Lisboa.

Ainda bem que foi feito desta forma e tivemos um ano para rodar o espectáculo. Chegámos aos Coliseus em completa sintonia e com as vozes trabalhadas para colar onde tinham de colar. Além da abordagem que foi feita das canções pelo facto de não cantarmos no mesmo tom também nos preocupámos com a canção. Com o que a podia melhorar.
 

A primeira música que cantaram juntos foi “lume” [1996 - CD de Mafalda Veiga “A cor da fogueira”].

JPP: São aqueles momentos de improviso! São momentos em que ninguém esta a espera de nada e depois acontece tudo. E esse tudo que aconteceu há oito, nove anos e foi um momento bom porque a Mafalda anda cá há mais tempo, tem mais experiência do que eu, mais maturidade musical…

MV: Esta é a parte em que ele diz coisas sobre mim (risos)

JPP: É verdade! Era como eu convidar um miúdo que está hoje e começar. Mesmo que ele tenha só um disco. Eu fiquei todo orgulhoso da Mafalda me ter convidado! A Mafalda também não convida qualquer pessoa… (risos)

MV: É eu sou muito esquisita… (risos)

JPP: É de ficar agradecido não é? Então eu ainda não era ninguém e há alguém que pega em mim e vá dá cá a mão vou puxar-te para cima. Não está lá a pisar-nos a mão para cairmos… Isso foi um momento que me marcou. É um momento de agradecimento… Marcou-me muito!

MV: A música também é isso. A música é partilhar, é harmonia mais do que qualquer outra coisa.

Com é que se partilha uma música, algo que em vocês parece tão intimo e pessoal?

JPP: Tem de haver amizade.

MV: Sim, porque no princípio há medo. Há aquele medo do isto é meu, como é que outra pessoa vai cantar isto comigo?

JPP: Para cantar as coisas da Mafalda entreguei-me mesmo. Claro que impus o meu jeito próprio, o meu estilo, mas dediquei-me… Como se a música fosse minha.

MV: Houve muito esforço da parte de todos para perceber de onde é que as coisas vinham. E nós encontrámos um conceito para o Lado a Lado. Um conceito que é menos a acumular do que a desmontar. Acho que desmontámos coisas, tirámos coisas até chegar talvez à essência das canções, à maneira como elas são feitas. É isto que nos liga mais porque nós compomos com a guitarra em casa as nossas histórias, as nossas coisas e as canções partem do mesmo contexto.

A abordagem do João Pedro é mais virada para o rock a minha é mais acústica mas se tirármos a abordagem e os arranjos chegamos ao ponto em que as canções foram feitas que é muito próximo. E isso foi o que nós fizemos no Lado a Lado. Foi despir, foi tirar e encontrar ali um campo de empatia e de pontos em comum que os músicos entenderam e interpretaram muito bem. Neste sentido acho que estamos os dois contentes com o resultado do projecto enquanto resultado artístico que nos deu muito trabalho.

Porquê esta importância da simplicidade e da pureza de uma música?

JPP: Nós andamos à procura da batida perfeita ou do som perfeito como já alguém disse. Mas isso nunca vamos encontrar, porque o que gravamos hoje queremos sempre melhorar…

O disco ainda estava um bocado imaturo… Agora os Coliseus… Foi mesmo forte. Forte de olhar para trás e dizer que quem veio, quem pagou para nos ver, não saiu enganado e os ‘canta-autores’… Eu nunca vi o Palma [Jorge Palma] tão feliz! Eu vi o Palma e o Fausto que andam cá há trinta anos e o José Mário que anda cá há quarenta olharem para mim e para a Mafalda como quem diz “assim vale a pena, espectacular!”. Pessoas que sabem mais do que nós, que têm mais estudos musicais do que nós, com mais experiência, chegam ali e dão-nos os parabéns e abraçam-nos! Muito obrigada!

MV: A pureza que queríamos sentir é essa. É fazer as coisa pela emoção da música, pela emoção daquilo que sentimos a tocar, pela emoção que nos provoca podermos cantar com pessoas que admiramos tanto. É podermos partilhar esses momentos com pessoas que são tão importantes para nós! Há uma pureza nessa emoção que é muito importante, que é nuclear no sentido que é dali que as outras coisas depois acontecem, que as outras coisas depois farão sentido ou não.

 joao pedro pais

João, numa das primeiras partes que fez de um concerto de Bryan Adams emocionou-se com o facto de o Bryan Adams estar a assistir ao seu espectáculo. Este é apenas um exemplo… Acha que a sua humildade tem contribuído para trilhar um percurso de sucessos?

JPP: (risos) A equipa do Bryan estava de lado toda a assistir… Eu costumo dizer que não me levo a sério. Ando aqui porque estou de passagem. Qualquer dia chega outro e tenho de lhe dar o lugar. Não ficamos cá eternamente.

Eu tenho muito respeito pelas pessoas que andam cá há mais tempo, aqueles que me ensinam e aqueles que gostam de mim. Porque não me quero rodear daqueles que não gostam! (risos) Aqueles que me querem ensinar e ainda por cima dizem ‘epá gosto de ti’ eu aceito. Então eu quero aprender! Não é uma questão de humildade é uma questão de respeito pelos outros. E vou continuar assim sempre. Claro que tenho a minha vaidade. Mas o respeito é que é essencial. E a camaradagem… se não tivermos camaradagem o que é que interessa ser humilde?

Mafalda, o facto de ter vivido no Alentejo durante dez anos ainda a inspira para compor? Principalmente os temas mais ligados à terra como o Restolho?

MV: Eu ainda lá vou de 15 em 15 dias (risos). O Alentejo inspirou-me para o primeiro disco. Principalmente porque tive muito tempo fora do país e o regresso a casa, a todas as paisagens que tinham ver com a minha infância, foi muito forte. Quando eu comecei a compor em português, porque tinha feito umas coisas antes que não eram em português, aquela paisagem era uma forma de pôr para fora as minha emoções. Era o que tinha mais impacto em mim naquela altura. Mas a partir do segundo disco, que foi logo no ano a seguir, acho que o meu universo é muito mais urbano e muito mais a vida das pessoas, o quotidiano, as coisas que nos acontecem, as emoções que vivemos no dia a dia. Acho que houve uma temática que mudou bastante cedo.

mafalda veiga

Para terminar, com descrevem este tempo que passaram juntos em poucas palavras?

MV: Para mim foi uma experiência importantíssima. Foi muito bom. Nunca tinha feito uma parceria assim. Já tinha convidado pessoas para cantar comigo em discos mas nunca tinha feito um projecto com alguém durante tanto tempo e com objectivos que foram atingidos de uma forma tão boa. Nós fizemos coisas que para os dois, eu acho, serão inesquecíveis e conseguimos estar com o Fausto, com o Zé Mário, com o Jorge em momentos tão importantes para nós e isso é marcante. Para mim vai ser de guardar obviamente.

JPP: É recíproco. O que a Mafalda diz… gostei imenso. Onde fomos as pessoas estiveram connosco, estiveram sempre connosco mesmo. Estou a lembrar-me… Funchal, Óbidos… Era complicado se nós tivéssemos tocado num sítio onde as pessoas não estivessem connosco, se ninguém estivesse lá para nos ver… Quando as pessoas querem ouvir a nossa música, cantar connosco… Faz todo o sentido continuarmos.

MV: Temos de agradecer ao público a força toda que nos deram neste projecto e temos de agradecer à equipa que esteve connosco e que foi impecável em tudo. Ah e tenho de agradecer ao João Pedro por esta parceria que foi muito importante para mim…

JPP: E eu ofereço-te o jantar por isso vá… (risos)

Fotos: Isabel Pinto e Joana Lima Rocha


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