The Clash: Joe Strummer através da lente de um amigo
Filipa Galrão

Um Joe introspectivo que se transforma permanecendo sempre o mesmo. Um realizador que chora a morte desse Joe e o homenageia em filme para se livrar do seu fantasma. Joe Strummer: The future is unwritten [o futuro não está escrito] é a descrição de um génio feita por quem o viu de tão perto.
Joe Strummer sempre fez na vida aquilo que quis. Sem inventar alter-egos que suportassem a excentricidade e entusiasmo próprios de um artista famoso, o facto de ser genuíno fez com que as suas músicas e letras tivessem ainda mais impacto. Fez parte da revolução punk que abalou a cena musical londrina nos anos 70. Confrontou as injustiças do sistema implementado de então e passou, com sucesso, a sua mensagem. Até hoje.
Para além de se implementar através da música, o punk precisava de ser imortalizado e visto de uma forma séria. Será nesta demanda que Julien Temple, um jovem londrino, aspirante a realizador, se torna amigo dos cabeças de cartaz da revolução emergente: Sex Pistols. Depois de fazer o seu primeiro documentário, Sex Pistols, Number 1, Temple começa a acompanhar a segunda maior referência da cena punk, os The Clash, detentores de um vocalista egocêntrico que, mesmo assim, achava uma perda de tempo serem filmados.
Porém, Strummer, filho de um diplomata, não quer que as coisas se confundam e propõe a Temple um ultimato: “Ou nós ou eles [Sex Pistols]”. Como amigo que era destes últimos, Temple acabou por escolhê-los, tornando-se persona non grata dos Clash. Com os Sex Pistols filmou The great rock ‘n’ roll Swindle e O lixo e a fúria. Muitos foram, também, os videoclipes que filmou com nomes da música tão sonantes e distintos como Rolling Stones, David Bowie, Janet Jackson ou, mais recentemente, Scissor Sisters.
Acaso do destino ou mera coincidência

No início dos anos 90, Julien Temple descobre que Strummer comprou uma quinta em Sommerset, Inglaterra, perto da sua. E uma amizade (re) nasce. Este sentimento foi estimulado por partilharem muitos dos mesmos ideais (de esquerda) e pelas origens de ambos da classe média - facto que Strummer se recusava a aceitar na época áurea dos Clash.
No entanto, a 22 de Dezembro de 2002, as conversas longas à lareira terminam com a morte de Strummer, vítima de ataque cardíaco, enquanto lia o jornal, sentado no sofá. Tinha 50 anos. Temple foi um dos amigos que carregou o seu caixão e, desde esse momento, pensou que era preciso homenageá-lo. Era preciso mostrar a face de quem criou a ” única banda que interessa”, segundo a crítica, da revolução punk - rock . Mas era preciso mostrar, principalmente, o amigo.
Joe Strummer: The future is unwritten
O documentário dura duas horas e começa, justamente, com um filme a preto e branco do pequeno Strummer a criar confusão no seu quintal. “Desde muito novo que exercia um fascínio óbvio sobre as pessoas, dava-lhes energia”, disse Temple à revista Mojo, a respeito das imagens que iniciam o documentário.
O realizador teve pretensão de mostrar o amigo na totalidade. A infância privilegiada de Joe Strummer, o suícidio do seu irmão mais velho, os dias hippies em que quis ser hippie e viveu nos squats, a ascensão à fama que sempre desejou, a luta constante por um objectivo de vida e, por fim, o querer mandar na banda, facto que causou a sua separação.
Strummer tinha tendência para magoar os que lhes estavam mais próximos e esse aspecto é muito focado no filme. Outros temas como a sua ânsia desmesurada pela fama, o facto de ser um sedutor nato ou um pensador profundo que sempre lutou contra a injustiça são, também eles, temas recorrentes. Apesar de tudo, Temple vê o amigo como “um filósofo e uma pessoa que tinha um código de vida muito viável”.
Dos colegas, só o baixista Paul Simonon recusou entrar no filme. Topper Headon (baterista) ex- viciado em heroína, também esteve reticente mas acabou por entrar e contar, por exemplo, o episódio em que Joe Strummer lhe roubou a namorada e o expulsou da banda. Já Mick Jones (guitarrista) estava “incrivelmente desconfortável e nervoso” no momento da entrevista, segundo afiançou Temple, ” não conseguimos falar de nada durante meia hora”, admite. Porém, quando a conversa engrenou o resultado foi uma longa e interessante entrevista.
Quase tão bizarro como o facto de Strummer e Temple se terem tornado amigos depois de passado o fervor da única coisa que parecia uni-los - o punk - é o arrepio na espinha que surge quando se ouve Strummer a narrar o próprio filme, com áudio retirado de 100 entrevistas e trechos do seu programa de rádio London Calling, da BBC World Service.
O filme foi apresentado, pela primeira vez, no Sundance Film Festival, em Janeiro deste ano. Foi, igualmente, mostrado no Dublin Film Festival a 24 de Fevereiro. No Reino Unido o seu lançamento deu-se em Maio e só esta semana estreou (apenas em algumas das principais salas do país) nos Estados Unidos.Muito bem recebido pela crítica, já foi considerado o maior documentário de música de sempre.
O filme foca, no fundo, a história partilhada do punk por realizador e artista. É uma celebração a Joe Strummer que tem como objectivo “inspirar as pessoas”. “Tentei mostrar o homem que conhecia - como amigo, não como fã ou historiador”, disse Julien Temple, “espero que vejam o filme e aprendam o motivo por detrás da atitude”.
Com: Blitz, Mojo e Reuters
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