Cimeira UE - África: Abriram-se portas a uma “relação de igual para igual”
Joana Machado Duarte

O primeiro-ministro português, visivelmente satisfeito pela chegada a bom porto de uma cimeira que se tornou bandeira da presidência portuguesa, afirmou hoje no encerramento da Cimeira UE - África: “Cumprimos todos os grandes objectivos a que nos tínhamos proposto”. José Sócrates referia-se à adopção de uma estratégia conjunta, um plano de acção e um mecanismo de monitorização para o acompanhar.
Os líderes africanos e europeus assumiram ainda uma agenda para responder aos desafios mais prementes da actualidade que marcaram a agenda da cimeira: a paz, os direitos humanos, a imigração e as alterações climáticas.
Para Sócrates, esta cimeira foi um “acontecimento verdadeiramente extraordinário (…) capaz de conquistar um lugar na História [num momento em que] nos encontrámos olhos nos olhos, entre iguais, com um espírito novo”.
“A ideia mais repetida, mais partilhada foi a de que esta cimeira representa um virar de página na história”. José Sócrates não se mostrou alheio à grande responsabilidade que tal facto acarreta: “a nova página ainda está por escrever. Esta é a nossa maior responsabilidade”.
Esta terá sido uma cimeira que “soube dar voz a quem precisa dela”, uma voz que “fica para o futuro na Declaração de Lisboa”.
John Kufuor, presidente da União Africana (UA), descreveu hoje a II cimeira UE-África como “um êxito” com “grande impacto na nova era da globalização”, “O sucesso desta cimeira reflecte o empenho e vontade dos dois continentes e abre grandes expectativas a África e a Europa”, continuou Kofuor.
O dirigente africano louvou a organização desta importante cimeira após um interregno de sete anos no diálogo entre os dois continentes, agradeceu a hospitalidade e elogiou a organização do encontro.
Objectivo Cumprido
A abertura do pavilhão Atlântico aos líderes africanos e europeus cumpriu um dos objectivos mais ambicionados pela presidência portuguesa. Ângela Merkel era a “porta-voz” de uma intervenção acerca de direitos humanos e governação, um importante teste que os presentes deveriam superar.
Na agenda comum, primeiro teste ao sistema de estratégia concertada dos membros da UE, estavam cinco temas fundamentais a discutir. A intervenção de Ângela Merkel; uma exposição acerca de paz, segurança e prevenção de conflitos levada a cabo por Sarkozy; a discussão do tema comércio e integração regional conduzida pelo líder italiano, Romano Prodi; energia e alterações climáticas era o tema apresentado pelo primeiro-ministro dinamarquês, Anders Fog Rasmussen e migrações, um tema directamente relacionado com a fragilidade europeia, apresentado por Rodrigues Zapatero, chefe do Governo Espanhol.
Do lado africano eram esperadas criticas à injustiça dos novos acordos de parceria económica (APE), instrumento que a UE quer utilizar para regular as relações comerciais.
Comum ao lado europeu era o desejo de afastar de vez a herança do período colonial e abrir as portas a uma relação “de igual para igual”. Durão Barroso sublinha: “A África transformou-se numa questão geostratégica maior na cena internacional”. Os seus recursos naturais e o combate ao terrorismo elevaram-na a este “estatuto”. África já não é um saco sem fundo da ajuda humanitária. “Era preciso recuperar o diálogo político ao fim de sete anos de costas voltadas”.
Ainda em termos estratégicos, o sucesso da relação Europa-África dependerá certamente da adopção de uma estratégia diferente. Essencialmente diferente das estratégias adoptadas pela China e pelos EUA que assentam a cooperação quase exclusivamente em garantias energéticas. Para a Europa espera-se uma relação assente em valores e interesses comuns. Recorde-se que a Europa ainda é o maior parceiro comercial de África e o seu maior “fornecedor” de ajuda.
Louis Michel, Comissário Europeu para o Desenvolvimento é firme quando afirma” O que precisamos é de pôr fim ao paternalismo, ao neocolonialismo, ao infindável discurso moralizador. Precisamos de um verdadeiro diálogo, agora.”.
É ainda importante não esquecer que a realização desta cimeira implicou algumas cedências: Gordon Brown não esteve presente e os líderes europeus foram obrigados a adoptar um maior pragmatismo em matéria de direitos humanos e boa governação para poderem sentar-se à mesma mesa com os líderes africanos e ainda sorrir para a fotografia no fim.
Com: Público, Reuters
Foto: Reuters
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