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Entrevista a Luís Sanchez - Storytailors  Enviar por email Imprimir

Eliana Silva

ES - E de que forma é que lidam com as outras clientes?
LS -
Há o trabalho específico, quando trabalhamos com uma cliente: é sempre desenhado algo de propósito com base em algo que nós já tenhamos feito, e então muitas vezes recorremos a criações anteriores e fazemos novas interpretações porque assim é mais fácil para a pessoa visualizar aquilo que imagina. Uma peça pode levar muito tempo a fazer – peças que são bordadas podem levar 3 meses – não é uma coisa imediata. O tempo é o nosso principal inimigo. As nossas clientes não têm muitas vezes a noção do tempo: quando lhes é proposto uma coisa pensam que as coisas acontecem mais rápido, esquecem-se que tem que haver tempo para preparar as coisas. Esquecem-se que nós temos outras clientes e que chegam cá e o vestido está pronto em 15 dias e isso é muitas vezes impossível, a não ser que paguem mesmo muito bem. Se querem rápido e bem, também têm que pagar por isso. Normalmente as coisas ficam cerca de 90% daquilo que nós queremos porque não temos realmente tempo.

ES - Como é que se insere um mundo fantástico no vestuário urbano lisboeta?
LS -
Eu acho que há um problema em Portugal, que é falta de sofisticação e de atitude das pessoas por não assumirem aquilo de que gostam. Se formos a outras capitais europeias as pessoas não andam fantásticas na rua mas têm estilo, um estilo mais sofisticado, mais casual, mais street. Aqui, ainda existe um bocado o preconceito sobre o que é que as outras pessoas vão achar e se vão estar bem no meio social em que estão inseridas. No fundo, aquilo que as pessoas querem é ser aceites, daí que sejam poucas as pessoas que assumem essa atitude.

ES -Já chegaram ao fim de uma colecção e pensaram “Não é nada disto que eu queria?”
LS -
Não. Normalmente chegamos ao fim um pouco cansados porque o processo de criar uma colecção é um processo muito intenso. Muitas pessoas falam com uma certa leviandade do nosso trabalho porque nós fazemos aquilo de que gostamos e por já termos alguma projecção e aceitação, esquecendo-se de que também existe um grande trabalho por trás. Nós basicamente somos workaholics e trabalhos 14 horas por dia.

ES - E no final? Há o alívio terminal ou a satisfação plena?
LS -
Há sempre uma mistura dos dois. Nós somos muito autocríticos e perfeccionistas com aquilo que fazemos. Como trabalhamos a contra-relógio chegamos ao fim e pensamos que podíamos ter feito melhor. Há sempre um período em que temos que nos distanciar daquilo que já fizemos e isso nunca é a curto-prazo, dura cerca de 2 ou 3 meses. É um processo muito intenso, não pela parte criativa mas sim pela parte técnica: Realizar um trabalho tão arquitectónico é um processo difícil porque tem muita estrutura. Nós não temos peças que possam ser denominadas de básicas, por mais limpa que seja a sua aparência, eles são sempre muito detalhadas.

ES - Como é que o público desconstrói o vosso trabalho?
LS –
Quando as pessoas vestem as nossas peças sentem-se bem porque desta forma podem fantasiar sobre as suas próprias vidas. Acaba por ser um mimo pessoal porque não podem fantasiar sobre tudo o que as rodeia, mas podem interpretar aquilo que vivem: Uma mulher pode ter um vestido fantástico mas senão tiver a atitude certa não funciona. Eu acho que a nossa roupa é arrojada e as pessoas ficam um pouco relutantes em usar algumas das nossas peças mas geralmente as pessoas sentem-se bem porque há sempre um pormenor que faz com que se sintam confortáveis com isso. As pessoas não se querem dar ao trabalho de desconstruir as mensagens. Mas há uma parte do público que se preocupa em decifrar esses códigos.

ES – Estão a ultrapassar um bom momento na vossa carreira. Não têm medo que as pessoas se enjoem desse rebuscado todo?
LS -
Como o nosso trabalho é fruto da sociedade em que vivemos, um sítio onde acontecem sempre metamorfoses, ele vai-se modificando. Devido ao excesso de comercialização das próprias marcas, a moda acaba por ser como a fast-food, ou seja, as pessoas consomem porque é barato: em vez de comprar uma peça de 50€ ou de 500€, compram 10 de 5€ e pensam que se deixarem de gostar dela, põem-na a um canto ou dão a alguém. De certa forma, as pessoas acabam por desvalorizar a peça de vestuário. Existe a falta de uma atitude contrária, isto é, que as pessoas compreendam, o simbolismo do vestuário e queiram estar mais informadas. Aos poucos as pessoas ficam maravilhadas porque acabam por perceber e por interpretar a moda segundo uma psicologia do vestuário, através da sua história. Aquilo que acaba por estar presente nas nossas colecções são códigos de vestuário que são de fácil leitura.

ES - Sentem que os Storytailors já têm o seu nome sustentado?
LS -
Não, isso é uma coisa que se consegue muito devagar. É um processo que demora cerca de 10 anos a acontecer porque requer uma maturidade que nós ainda não temos É algo que não é material e que até lá chegar tem que ser através de muito trabalho, se bem que as pessoas já nos vão conhecendo e já têm expectativas em relação ao nosso trabalho.

ES - O que é que falta à Moda portuguesa?
LS –
O que falta na nossa sociedade é acreditar e consumir os designers portugueses. As pessoas ao comprarem vão estar a ajudar-nos a financiarmo-nos. Só assim a moda nacional pode evoluir, chegando a uma loja, por exemplo. Aqui, existe muita falta de nacionalismo, caso que não acontece em país tão próximas como Espanha (se bem que eles são nacionalistas em tudo, não só em moda).

Storytailors

ES -Já sentem necessidade de fazer um balanço daquilo que fizeram ao longo deste 4 anos?
LS -
Não, porque muitas vezes tentamos buscar ideias que estão enquadradas num contexto particular. Mas o nosso trabalho vai evoluindo, vai crescendo connosco e isso marca o nosso caminho. Nós temos ideias a partir de um argumento de uma peça que foi feita em criações anteriores.

ES – Ainda são poucos os estilistas portugueses com lojas assinadas com o seu nome. Vocês já o conseguiram. Como é que é ter um espaço aberto ao público?
LS -
A nossa loja está num roteiro turístico e há muitas pessoas que reparam logo neste espaço porque o acham interessante. Temos muitas clientes estrangeiras, especialmente inglesas, que entram e compram. Acabam por ficar fãs. Além das que compram, existem as que escolhem peças e nós enviamo-las por correio. Lisboa está a torna-se numa nova Barcelona, a cidade está a ser recuperada, está a torna-se sofisticada com mais eventos culturais, é uma cidade luminosa e isso está a torná-la aliciante.

ES – O reconhecimento internacional é a meta dos Storytailors?
LS –
Sim. Eu acho que existe uma globalização que leva a uma precipitação das marcas, com a qual nos é difícil lutar. Existe um design especial, que não é industrial e que está a ter mais adeptos. As pessoas pensam que compram um nome ou a marca, mas o que acabam por pagar é o trabalho e a exclusividade.

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