Junção de Sintra ao Teatro – Quinta da Regaleira recebe as “Estórias Aluadas”
Andreia Moita

Para que é que serve o dinheiro? Porque é que temos de o dar em troca das coisas? Porque é que não podemos deixar o lixo na floresta? E porque é que temos de comer mais sopa em vez de doces? São estas e outras perguntas de formato educativo a que as “Estórias Aluadas” se propõem responder, um projecto do grupo de teatro Tapafuros que permite incutir nos mais pequenos um gosto pelo teatro enquanto aprendem conceitos de ecologia, fraternidade e bem-estar.
Aos pais fica facilitada a tarefa de mostrar aos filhos a arte de representar e acabam por ganhar a oportunidade de passear na Quinta da Regaleira, em Sintra, que acolhe o Projecto. Deixem-se encantar pela magia da Regaleira e pela paisagem que esta oferece após ouvir o tilintar da lua como plano de fundo das “Estórias Aluadas”.
É por entre os recantos da romântica Regaleira que se ouve o burburinho. Crianças preparam-se para entrada no mundo da fantasia ao vivo. No meio dos verdes jardins, a oficina das artes recebe a peça que está prestes a começar e O Amador foi assistir.
Pequenas almofadas verdes afiguram-se na frente do palco, um convite à aproximação do publico mais pequenote. Mais atrás, cadeiras para os mais velhos. O cenário compõe-se de árvores feitas de esponja, uma pequena casinha e a lua em cima, que sorri.
Olhares expectantes, ansiosos, olhares atentos, aguardam. Silêncio. É o levantar do pano.
Inicia-se a história com o palco enfeitado de três actores. Rute Lizardo, Samuel Saraiva e José Redondo dão vida a diferentes personagens em vários episódios formando um conjunto de cenas, cada uma com uma moral. Interpretam o bem e o mal, o que está certo e o que está errado. Ensinam o respeito e a responsabilidade e enveredam por um caminho mágico, fascinante para quem está a crescer.
A construção das personagens exige concentração e atenção. Quando o público é infantil há um trabalho acrescido a estas preocupações “pensamos em animais que nos façam lembrar a personagem”. Samuel aponta para a barriga gorda que inclina para a frente no intuito de parecer maior “ para esta barriga pensei num urso”.
Uma árvore, interpretada por Rute Lizardo, apela ao carteiro, José Redondo, que leve uma carta aos meninos da escola dizendo que não se deita o lixo na floresta. As árvores estão a ficar doentes!

Quando o público é jovem é necessário chamar a sua atenção em vários pontos da peça. A medida que as cenas evoluem torna-se pertinente a inserção dos meninos da peça. Reina a interação! Interessados e nada envergonhados sobem ao palco e tomam posições.
As cenas vão já avançadas. As histórias sucedem-se umas atrás das outras. Uma criança, com manifesta inquietação, pergunta aos pais “quando é que vamos embora?”. Prender a atenção de uma criança é a parte, acentuadamente, mais complicada. A linguagem, as músicas, as vozes e as expressões têm de ser bem pensadas e adequadas “ As crianças são muito premiáveis, muito ansiosas e o desafio é maior. São um publico muito honesto” comenta Rui Mário. Rute usa a expressão facial para recrutar o interesse dos meninos, move os lábios, joga com o olhar e deita a língua de fora. “Tenho uma cara muito elástica”, diz.
E… como os imprevistos acontecem, esta peça recheia-se deles. Um menino sobe ao palco e entrega um papel de chocolate a Samuel, vestido nesta altura de frade Capuchinho e acompanhado pelos restantes actores em cena. Depressa se gera um jogo de improviso e o actor exclama “vêem? Não se deve comer tantos doces!” O encenador explica que não se pode fingir que as coisas não acontecem “quando algo não estava previsto, integra-se na cena, faz-se um jogo à volta disso”.
Ao redor da quinta o vento corre frio, contrasta com o calor da sala, calor do aconchego. Os actores dão as últimas cenas ao seu público. Aplausos, sorrisos e… aplausos. O bater das palmas para eles é “algo muito difícil de conseguir, mas é do melhor que há”. As palmas e os sorrisos calorosos recompensam o trabalho. Esboçam uma expressão feliz, mas estão cansados. Todos os fins-de-semana a peça abre as portas e o único sustento é a bilheteira. Mesmo assim o encenador orgulha-se, o trabalho é valorizado e os projectos não se esgotam “ o grupo quer afirmar-se do ponto de vista do cardápio que oferece”
Esta peça nasceu devido à vontade do Tapafuros, um grupo sintrense, de inovar e ser versátil. Para esta história o grupo contou com a participação de cinco autores para a criação dos textos: José António Guille, George Till, Luísa Barreto, Maria Medina e Rui Mário, também encenador e é nessa qualidade que nos diz que são todos autores com olhares viventes.
O grupo Tapafuros vigora desde 1990. Começando por ser um teatro de escola foi-se desenvolvendo e aprimorando capacidades. Assume agora residência na Quinta da Regaleira onde não fazem só teatro de sala, exploram também a vertente de teatro de rua para os adultos, onde aproveitam o cenário propicio da quinta “ as pessoas desejam assistir a coisas diferentes, no teatro de rua o pÚblico é convidado a andar, a participar no espectáculo e a interagir com os actores”. Contudo, as “Estórias Aluadas” têm cenário assente e destinam-se às crianças, “ nota-se cada vez mais uma vontade das pessoas em dar teatro às suas crianças”, comenta o encenador.
Os Tapafuros
O grupo além de aproveitar o espaço cultural nas peças de rua, tem também como objectivo nas peças infantis, a procura de temáticas actuais, músicas originais e contemporizar a cena teatral. Um hino à originalidade!
A ida a Sintra já trazia consigo motivos suficientes. Terra cheia de cultura e histórias escondidas à espera de serem descobertas. As “Estorias Aluadas”, do grupo de teatro Tapafuros, são agora, mais um motivo de visita.
Conheça o grupo:
www.tapafuros.com
www.tapafuros.blogspot.com
Informação necessária:
de 24 Nov a 27 Abr naQuinta da Regaleira em Sintra
sáb: 16h dom: 11.30
Durante a semana, com marcação para escolas
Preço: 7€
À venda: na regaleira, lojas fnac e lojas viagens abreu
Para reservas: 219106650 / 707234234
*Fotos por: Bruno Ribeiro
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