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A excentricidade da Quinta da Regaleira  Enviar por email Imprimir

Andreia Moita

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Da Quinta da Regaleira, envolta em vegetação, emerge um palácio. Estilo neomanuelino e renascentista. O verde é abundante, mas deixa espreitar as torres, as grutas labirínticas, a capela, as estátuas greco-romanas, o misticismo, o esoterismo, a história, e o prazer da descoberta, por isso o Amador foi descobrir…

É em Sintra que se localiza esta propriedade. Construída nos últimos anos da monarquia foi posteriormente adquirida por Carvalho Monteiro. Conhecido por ser o “Monteiro dos milhões” fez da Quinta o que ela é hoje. Recheou-a de símbolos históricos e de cargas mitológicas. Também a sua vida e os seus interesses ficaram para sempre gravados por entre os recantos da quinta. As mãos de Luigi Manini ajudaram na arquitectura. O resultado é uma mistura explosiva de histórias e significados escondidos.

O patamar dos deuses faz-nos percorrer um caminho que nos conta pormenores da vida de Carvalho Monteiro. Cada estatua greco-romana remete para um momento da vida do ultimo proprietário, Carvalho Monteiro. A mitologia clássica foi um dos interesses do Monteiro dos milhões e isso está representado por Hermes, Vulcano, Dionísio, Pã, Demeter (deusa das quatro estações), Perséfone, Vénus, Afrodite (deusa do amor) Orfeu (representa a musica e a poesia na vida do proprietário) e Fortuna (representanta da sorte e da esperança).

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Por dentro de uma anta, um símbolo do elemento funenário megalítico, está o famoso poço iniciático. Mítico este elemento da quinta. São nove patamares abaixo do chão. Todas as grutas e escavações presentes na Quinta provem das intenções e imaginação de Carvalho Monteiro, tendo sido por isso feitas pela mão humana Este Poço tem como objectivo levar-nos até ao fundo da terra, numa espécie de tentativa espiritual, ir ao encontro de nós próprios. No fundo encontra-se uma estrela de oito pontas que indica um caminho por entre uma gruta. É daqui que surgem várias saídas. Uma representação de uma cena da Eneida, de Virgílio.

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A cascata é uma das saídas possíveis do poço. Conta o Guia, que conhece os segredos desmitificadores da criação da Quinta, conta que o caminho deve ser feito em direcção a esta cascata, a abertura conduz à luz, à iluminação.

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Mas o Poço Iniciático reserva mais surpresas. No seu interior faz a ligação a diversas pontos da Quinta. Dentro do labirinto que nos obriga a fazer escolhas, há a possibilidade de nos encontrarmos diante do portal dos Guardiães. Ligado às Artes do espectáculo, Carvalho Monteiro fez questão de não esquecer a construção de um teatro, dentro da sua Regaleira. Representado na foto está o que seriam os bastidores. Em tempos atrás dos tritões voavam pequenos rasgos de água. Contudo, não há registo que alguma vez uma peça de teatro tenha ali sido realizada.

De frente para os bastidores, o palco. Duas torres, uma maior que outra. Alinhadas. Alinhadas na direcção do castelo dos mouros. Uma espécie de continuidade.

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A torre. Será a parte mais alta da Regaleira? Género torre da Rapunzel, podemos observar de longe o Castelo dos Mouros e ainda o Palácio da Pena, duas grandes e distintas marcas de Sintra.

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Dentro da Quinta e por entre a vegetação, também se afigura uma capela. Histórias esculpidas na pedra marcam um estilo. Santa Teresa de Ávila e Santo António encimam a capela que também conta com a presença do Anjo Gabriel. No chão é possível deparar-nos com uma cruz da ordem de Cristo.

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A fonte da Abundância. Pequena mas com significado, com sentidos. Escondidos. É preciso desmitificar mais este elemento presente na paisagem da regaleira.

É um tribunal. Ou pretende ser. No centro afigura-se o trono, do juiz. Uma mesa. Tudo diante da Fonte. Do lado do trono, dois vasos se notam, cada um deles com a figura de um sátiro que representa o caos e um carneiro que é o símbolo da ordem.

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A quinta era usada apenas para férias e o passar dos anos fê-la ficar estranhamente atraente. O seu aspecto é hoje incrível por dentro e austero por fora. A vegetação cobre hoje aquilo que era a vista sobre Sintra.

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Os mistérios que a Quinta nos faz recordar, já foram evocados. José Rodrigues dos Santos já se através a percorrer estes trilhos e a descreve-los em o “Codex 606” no qual diz “ a quinta foi construída numa época de revivalismo, de recuperação dos valores antigos (…) procurou recuperar também as fundações dos descobrimentos” ; “ os símbolos clássicos aqui espalhados, segundo uma forma alquímica, emergem do cristianismo templário e da tradição clássica renascentista com raízes em Roma, Grécia e Egipto”.

Como textos fundamentais para a compreensão de toda a extensão da quinta e das suas alegorias o mesmo autor indica a Eneida, de Virgílio, Os lusíadas, de Luís de Camões, A divina comédia, de Dante e Hypnerotomachia poliphili, de Francesco Colonna. Textos que vêem episódios seus envolvidos nos mais pequenos pormenores deste lugar.

Fotos por: Bruno Ribeiro


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