Alice, minha amiga Alice
Susana Paula

No centro de Lisboa, bem perto dos jardins da Gulbenkian, um apartamento. Tipicamente lisboeta, escuro, apesar das janelas altas. A sala, pintada de verde, não amplifica a pouca luz que vem da janela, pouco depois das quatro da tarde. O que dá luz ao apartamento são os livros. Livros por toda a parte. Empilhados desordenadamente, ora deitados, ora em pé, ora de uma qualquer maneira. Quem os arrumou sabe onde estão.
Milhares de fotografias também iluminam a casa. Alice Vieira aparece em quase todas. Alice com um amigo, Alice com outro amigo, Alice e outro. Alice com os netos. Alice com os filhos. Enfim, Alice Vieira entre os livros. Alice entre os amigos.
Os primeiros amigos de Alice foram os livros, uma vez que a infância solitária a atirou para o único mundo que lhe abria as portas: a literatura. Pequena, aprendeu a ler e a escrever sozinha. Com o passar dos anos, Alice foi fazendo amigos em cada uma das peripécias que viveu: jornalista desde a adolescência, Alice Vieira sempre teve o olhar atento a qualquer pormenor que lhe despertasse uma história e, consequentemente, um livro. As histórias hoje são muitas e, bem como os amigos, são a sua vida.
É o seu amigo de longa data José Oliveira que conta que “a Alice lê por necessidade. É algo que está dentro dela, faz parte da sua personalidade. Simplesmente não o consegue evitar”.
Alice Vieira caracteriza-se como “a rapariga que mais cedo saiu de casa”. Tinha 15 dias quando os pais a mandaram morar com familiares. Porquê? Hoje, com 64 anos, Alice ainda não sabe. Não era um problema económico, uma vez que a sua família era burguesa. “A minha mãe teve três filhos, todos com um ano de diferença, e deu-os a todos. Ela não tinha qualquer instinto maternal”, conta Alice, hoje mãe e avó. Durante a infância, Alice Vieira viveu em casarões, com tias e criadas velhas. “Uma vez, quando era pequena, estava debaixo de uma mesa a ouvir os meus pais e tias a decidir para que casa é que eu iria morar a seguir”, conta a autora. E continua: “os meus familiares não se sentiam obrigados a tomar conta de mim e estavam sempre a demonstrá-lo”. Para além disso, simplesmente não a deixavam sair de casa. No pavor das doenças, a tuberculose era o maior medo das tias velhas. “Uma história que as minhas tias me venderam durante muito tempo foi a de que a minha mãe tinha ficado com tubercolose por minha culpa, que ela tinha ido para o Caramulo por minha causa”, confessa Alice. Só há pouco tempo descobriu que era mentira.
Alice Vieira garante que se habituou a estar sozinha, arranjando amigos nos livros, arranjando algo com que se entreter nos livros. Começou a escrever com cerca de 4, 5 anos, já não se recorda bem. Mas sabe que foi sozinha. Não tinha amigos e só no liceu teve contacto com pessoas da sua idade. Os seus amigos acabaram por ser os livros durante toda a sua infância, o que marcou a sua personalidade: “O grande isolamento a que as tias a obrigavam fez com que lesse muito e desenvolveu nela uma grande capacidade de reflexão sobre o que está à sua volta”, explica Duarte Mexia, grande amigo da escritora.
O jornalista Duarte Mexia intitula-se o biógrafo oficial de Alice: “Quando a Alice morrer, o que ainda vai demorar muito tempo, vou escrever um romance baseado na vida dela. É um imperativo sentimental”, explica. Conheceu Alice num encontro organizado pela sua escola, o Hora do Conto. Para a escritora, estes encontros são frequentes. Alice Vieira tem uma actividade muito intensa nas escolas, onde conversa com os jovens, que muitas vezes são seus leitores, e onde muitas vezes é entrevistada por eles. Mas Duarte Mexia não foi mais um. Hoje jornalista, foi uma entrevista que iniciou a empatia entre ambos. “Durante alguns meses não falámos, voltámos a falar quando eu tive que fazer um trabalho sobre o Rosa, minha irmã Rosa”. Hoje são “melhores amigos”. Duarte Mexia confessa que a cumplicidade entre ambos é “uma paixão para toda a vida”.
Rosa, minha irmã Rosa surgiu de um desafio dos filhos de Alice e um incentivo do então marido, o jornalista Mário Castrim. Depois de Catarina e André, os filhos de ambos, se terem queixado de não terem mais nada para ler, Alice propôs escreverem um livro juntos. De uma frase surgiram muitas outras. De um capítulo nasceram muitos outros. E, em 1979, nasceu Rosa, minha irmã Rosa. Nesse ano, a Editorial Caminho promoveu um prémio de originais, o Prémio de Literatura Infantil para comemorar o «Ano Internacional da Criança». Incentivada pelo marido a participar, Alice acabou por ganhar o prémio. Na altura jornalista do Diário de Notícias (DN), a sua vertente de escritora não era conhecida. Aliás, este foi o primeiro livro que escreveu e fê-lo apenas para os filhos. Depois de Rosa, minha irmã Rosa a Caminho publicou cerca de 30 obras de Alice para os mais novos. Chocolate à chuva, Lote 12 – 2º Frente, Flor de Mel, A lua não está à venda são algumas obras com as quais os jovens se deliciam. Sendo considerada das melhores escritoras infanto-juvenis pelos colegas e mesmo pelo mundo literário, a jornalista acredita que esta pode ser uma definição impertinente “na medida em que, ainda hoje, se considera que ser escritora infanto-juvenil não dá trabalho nenhum”. A escritora confessa que escrever lhe dá “imenso trabalho” e que “sofre imenso”. Apesar de José Oliveira não ver a colega e amiga como uma “autora amargurada pela sua obra”, valoriza a sua grande “honestidade intelectual”. O editor conta que “é normal a Alice ter um texto quase pronto e rasgar tudo porque acha que não está bom o suficiente”.
No entanto, Alice Vieira não escreve só para jovens. A escritora publicou recentemente um livro de poemas. Dois Corpos Tombando Na Água é “uma espécie de reflexão sobre o amor”. As palavras são de Fernando Pinto Amaral, professor da Universidade de Lisboa (UL), que escolheu este livro para o Prémio Literário Maria Amália Vaz de Carvalho. Os poemas estavam apresentados sob o pseudónimo de Filipa Sousa e Silva. O espanto era total quando perceberam que a autora era Alice Vieira. Afinal a escritora infanto-juvenil também escreve poesia. E para adultos.
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