Alice, minha amiga Alice
Susana Paula

O Código d’Avintes é um dos livros para adultos que Alice escreveu. Com ela, escreveu também, entre outros seis escritores, José Jorge Letria. O escritor confessa que Alice “para além de uma grande amiga é uma grande companheira de escrita”. O livro está publicado na Oficina dos Livros. Cristina Ovídio, a editora, conta que, para puderem escrever O Código d’Avintes, foi com os escritores numa visita de estudo até à localidade. Entre várias peripécias e coincidências, A editora da Oficina dos Livros repete continuamente que Alice Vieira “é solar, ilumina toda a gente à sua volta com a simpatia, humor e boa disposição”. E confessa mesmo que “é uma amiga do coração!”.
Contudo, “são as histórias para os mais jovens que desenvolvem mais paixões, mais histórias, mais cartas”, comenta Alice Vieira. Afinal foi também através de Rosa, minha irmã Rosa que Alice Vieira fez uma amiga especial. A escritora conta que um dia recebeu uma carta de Janine. Janine era francesa, tinha cerca de 70 anos e morava nas isoladas Ilhas Maurícias. De vez em quando ia a Paris, onde comprou o premiado livro de Alice. Janine queria ler o livro em português. Por isso, aprendeu a nossa língua. “A Janine aprendeu a ler em português, leu os meus livros em português e escreveu-me em português”. Aliás, Janine escreveu a Alice até morrer.
Janine fazia parte daquilo que Alice hoje chama ternamente “o grupo de fãs”. Esta é uma imagem que Alice usa para se referir ao grupo de amigos, na sua maioria raparigas, que fez através de cartas trocadas acerca dos livros ou de idas a escolas. Amigos que se mantêm, que cresceram com ela, amigos de Alice. São amigos que se orgulham em ter Alice como amiga. “Não por ser escritora, mas pela pessoa fantástica que é”, afirma Joana Viana.
Joana cresceu com Alice Vieira. É mais uma das várias crianças que enviou uma carta a Alice sobre um dos seus livros e obteve resposta. Graças e desgraças da corte de El-rei Tadinho foi o primeiro livro de Alice Vieira que Joana leu, quando tinha 7 anos. Escreveu-lhe e Alice respondeu no seu dia de anos. Foi o início de uma amizade por correspondência: “A Alice enviava-me postais de onde estava, mandava-me cartas. Eu respondi até aos 14 anos, quando me chateei com o mundo”. Mesmo sem as respostas de Joana, Alice continuava a mandar postais até Joana ter 16 anos. Enfim, Alice parou. “Eu estava no 12º ano e sentia-me mal porque não estava a responder. Em Julho de 2005, um mês antes de completar 18 anos, escrevi-lhe uma carta enorme, a contar o que se tinha passado durante tanto tempo, a pedir desculpa… E a pedir que voltasse a ser minha amiga”, cora Joana a contar. Alice aceitou. E hoje, tendo Joana quase 20, continuam grandes amigas. “Eu conto-lhe tudo”, ri-se a escritora.
Alice Vieira confessa que não consegue ficar sem responder a uma carta, chegando mesmo a passar fins-de-semana a responder às cartas dos seus leitores. Duarte Mexia brinca: “É louca por cartas!” A escritora confessa que “nada susbtitui uma carta”. De facto, esta era uma ferramenta que usava para conversar para além das paredes que a prenderam durante a infância. Era através de cartas que Alice convivia. Hoje, a jornalista não passa sem a sua correspondência, garantindo que, se depender dela, “os CTT não vão à falência!“. Aliás, o carteiro e a menina dos correios são já seus amigos.
Para além das cartas que escrevia para fazer amigos ou simplesmente para escrever, Alice passava horas ao espelho a contar histórias. A ler histórias. “Não admira que no exame de 4ª classe tenha passado com uma tão boa nota “, ri-se Alice.
“O Liceu Filipa de Lencastre foi uma libertação”, explica José Oliveira. As tias pensavam que Alice não se adaptaria. Enganaram-se. “Chegava a inventar aulas para ficar mais tempo na escola”. Afinal, a ida para o liceu foi uma libertação de todo aquele ambiente opressivo em que cresceu. “No liceu todos gostavam de mim, eram a minha família”, lembra Alice Vieira.
Um segundo momento de libertação foi a entrada no jornalismo. “O jornalismo era um mundo aberto a tudo aquilo que Alice Vieira não tinha”, explica Duarte Mexia. Alice não sabe quando começou a desenvolver esta paixão pelo jornalismo. Iniciou-se na área “no tempo do chumbo”, como o retrata a também escritora. No “tempo dos processos quase artesanais”, o cheiro a chumbo nunca largou o nariz de Alice: “é uma droga”, garante a jornalista.
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