Alice, minha amiga Alice
Susana Paula

Foi no Juvenil, suplemento do Diário de Lisboa (DL), que “a jornalista que também é escritora”, como se define, sentiu pela primeira vez o cheiro do chumbo – tinha 13 anos. É a partir de 1969 que Alice se dedica ao jornalismo profissional, como jornalista do Diário Popular. No entanto, é ainda no DL que Alice Vieira tem a sua grande estreia no jornalismo. Na altura com 24 anos, a jornalista teve que cobrir as inundações em Lisboa. Foram devastadoras e destruiram toda a periferia lisboeta. A lama, consequente das cheias e das condições miseráveis em que os alfacinhas viviam, era tanta que, pondo a mão lá dentro, se encontravam animais mortos, desde gatos a cães. “Nós [jornalistas] queriamos mostrar as condições em que o país vivia, mas a censura cortava tudo. Era horrível”.
“O 25 de Abril foi uma felicidade para Alice”, conta Duarte Mexia. E continua: “Alice aguardava a liberdade como todos os dessa época”. O trajecto de Alice Vieira foi muito influenciado por Maria Lamas, a primeira femininista portuguesa. Também o Maio de 68 abriu os olhos da jornalista. Duarte Mexia acrescenta que, enquanto Alice tirava o curso de filologia na UL acompanhava movimentos comunistas. “O engraçado é saber que ela era comunista mas que ia para a faculdade com um BMW”. Alice ri-se quando se lembra desse tempo: “O meu carro fez muitas coisas na ilegalidade, contra o regime”. Lembra-se de que trabalhou muito “na primeira campanha para a constituinte”.
Era uma pessoa muito tímida na altura, timidez que perdeu quando a puseram a falar, numa manifestação, ao megafone. “Lembro-me de falar tanto que pûs as pessoas a chorar”, recorda Alice. O primeiro dia do trabalhador depois da queda da ditadura nunca vai deixar a memóra da escritora: “nunca mais vai haver um 1º de Maio assim, estava toda a gente na rua!”. Hoje, Alice Vieira é ainda militante do Partido Comunista Português (PCP), mas não se considera sectária, tendo sempre criticado muito o comunismo. “Sou comunista, mas com reservas”, declara a militante. E continua: “Não passo para o outro lado, não dá para não votar PCP”.
A jornalista lembra ainda a unidade dos jornalistas na altura: “eramos todos amigos e tínhamos todos o mesmo objectivo – nem que fosse limpar praias, como uma vez um colega sugeriu, numa manifestação”. Na opinião da jornalista, a unidade entre colegas que se verificava nos anos 70 não seria possível hoje. Alice aponta o dedo ao jornalismo que é feito actualmente: “o jornalismo está muito mal e é praticado com um facilitismo surpreendente”. Em 1975, Alice escrevia no DN. Hoje, a sua assinatura surge apenas em crónicas no Jornal de Notícias e nas revistas Activa e Audácia – “está mais desligada do jornalismo”, constata Duarte Mexia.
O biógrafo oficial faz notar que “ser jornalista é uma maneira de estar com o mundo e Alice desenvolveu-a quando saiu do balão onde esteve fechada grande parte da sua vida”. Numa altura em que os jornalistas eram a “ralé profissional, só homens sujos”, o jornalismo tornou-se a paixão da vida de Alice Vieira. “Sentia uma comichão nos dedos!”, confessa. “Alice tem um bichinho de jornalista, repara em todos os pormenores”, nota o editor da Caminho. Aliás, as histórias dos seus livros partem muitas vezes de pormenores a que Alice assistiu e apontou no seu caderninho, um típico Moleskine preto.
Ideias, frases, apontamentos do quotidiano. “Os olhos dos jornalistas têm de estar abertos a tudo”. Alice acredita que é o seu lado de jornalista que a tornou escritora. “Todos os meus livros partem de uma história verdadeira, de reacções de gente verdadeira. Trabalho sempre a partir da realidade”, declara Alice. É o olhar de jornalista que desencadeia as suas histórias. Foi da infância que Alice também recolheu algumas imagens que usou no seu livro. Alguns pormenores escuros, algumas personagens.
Mas a infância solitária não a tornou uma pessoa azeda. Antes pelo contrário. Alice é uma pessoa que demonstra simpatia em tudo o que faz. Rodeada de miúdos, numa sessão de autógrafos, Alice sorri mesmo quando lhe pedem para assinar livros de Uma Aventura. Não se preocupa.
“Não consigo encontrar defeitos na Alice. O que salta à vista são as suas grandes qualidades”, explica José Oliveira. Alice Vieira é uma pessoa que Cristina Ovídio garante ser “solar”. “A Alice é solar”, repete. “A Alice é a minha cúmplice”, conclui Duarte Mexia. “Adoro-a”, remata Joana. E não é a única. Afinal, todos os pormenores da realidade de Alice davam um livro. Um livro que só se poderia chamar Alice, minha amiga Alice.
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