Dakar, o fim de um sonho?!
João Carita
As lendas do Dakar

Só se vislumbra uma pessoa! O palmarés do Dakar revela a todos os seus seguidores o maior homem da prova: Stéphane Peterhansel. Vencedor seis vezes em moto, o francês alargou a sua colecção com mais dois títulos conquistados após a sua passagem para as quatro rodas. Antes, entre aqueles que inscreveram o seu nome na legenda do Dakar, só Hubert Auriol, mais conhecido como “o africano”, se tinha imposto nas duas categorias, com três vitórias no total. Os adeptos das duas rodas têm igualmente presente a imagem de Cyril Neveu, vencedor dos dois primeiros Dakar ao volante de uma Yamaha 500 XT, e mais tarde ao volante de uma Honda. Richard Sainct (3 vitórias) e Fabrizio Meoni (2 vitórias), tendo ambos sido vítimas, com alguns meses de intervalo, da sua paixão pelo deserto, também eles têm um lugar privilegiado na memória do rali.
A passagem de Ari Vatanen, e precisamente das suas quatro vitórias ao volante dos Peugeot 205 e posteriormente dos 405, consagrou o finlandês como um ícone do rali. Campeão do mundo de WRC em 1982, Vatanen aplicou com êxito os seus dotes de pilotagem agressiva ao rali. Foi nos circuitos, inclusive de F1, que Jean-Louis Schlesser aperfeiçoou a sua pilotagem. O impetuoso reconvertido impôs-se por duas vezes nos seus buggys azuis, apesar de nunca ter conseguido chegar às alturas do palmarés mais elevado de um dos pioneiros, René Metge, detentor de três títulos nesta categoria Por último, Jutta Kleinschmidt, que tal como muitos outros pilotos, tomou o gosto pelo Dakar em cima de uma moto ainda como piloto amador, e é até hoje a única mulher vitoriosa do rali, com uma vitória na categoria dos carros em 2001.
Na categoria dos camiões, a marca Kamaz domina actualmente o historial graças ao seu dianteiro Vladimir Tchaguine (5 vitórias). Este domínio transformou-se numa corrida de perseguição com o checo Karel Loprais, que possui um dos CV mais ricos do Dakar: seis vitórias entre 1988 e 2001.
Histórias de amizade no Dakar

Pilotos que tiram os olhos da linha de chegada e esquecem as ambições pessoais para ajudar um concorrente em maus lençóis; equipas que perdem um jogo e aplaudem os vencedores e atletas que deixam o adversário marcar um golo. Estes são apenas alguns exemplos dos grandes momentos de fair-play durante 2007.
No passado mês de Setembro, o motard português Hélder Rodrigues sofreu um grave acidente durante o Rali Patagonia-Atacama, na Argentina. Ao passar pelo leito seco de um rio quando rolava a cerca de 160 quilómetros por hora, o piloto luso perdeu o controlo da mota e caiu, fracturando diversas costelas, o baço, além de sofrer outras lesões internas . Pouco depois, o piloto espanhol Jordi Viladoms chegou ao local e ao perceber a gravidade do acidente parou para prestar assistência ao companheiro português. «Estava muito pálido e tonto. Assustei-me. Estava a segurá-lo pelos ombros quando chegou o helicóptero para o evacuar, 40 minutos depois», contou, na altura, Viladoms, que esteve cerca de uma hora ao lado de Hélder Rodrigues, perdendo, naturalmente, muito tempo na classificação geral. No entanto, o fair-play do espanhol foi reconhecido pela organização do Rali, que o compensou com uma hora de bonificação.
«O Jordi salvou-me a vida. Esteve ao meu lado quando mais precisei, deu-me água e manteve-me consciente até chegar o helicóptero. Demorei quatro horas a chegar a um hospital e dissera-me que não morri por cinco minutos», recordou Hélder Rodrigues ao JN, que já tem uma longa história de amizade com Jordi Viladoms. «Estreámo-nos no Dakar no mesmo ano e, durante uma etapa em Marrocos, andamos perdidos durante mais de duas horas. Somos amigos, falamos frequentemente e, este ano, vamos estar novamente juntos no Dakar. Ele está lesionado, mas também vai participar na prova e teremos muito tempo para conversar», acrescentou o piloto português. Após o acidente de Setembro, Hélder Rodrigues esteve em coma induzido, foi-lhe retirado o baço, mas recuperou de forma espectacular, a tempo de alinhar no Lisboa-Dakar deste ano, que deveria arrancar sábado, ao lado do amigo Jordi.
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