“Novela sem mistério é como ‘sexo sem orgasmo’”
Bruno Cardoso
Refuta as opiniões de que as novelas são estupidificantes e diz que a ficção nacional evoluiu a todos os níveis. Sobre a sua escrita, Rui Vilhena revela ser obcecado pela técnica da escrita, que acompanha, atentamente, em tudo o que é feito fora de Portugal.

Rui Vilhena, argumentista português
De camisa descontraída sobre umas calças escuras com um cinto e uns ténis desportivos, Rui Vilhena fala sem parar. A conversa decorreu numa ensolarada tarde de Sábado no Holmes Place de Cascais. Para o guionista português, que se reveza, actualmente, entre a adaptação para televisão da obra Equador e a supervisão artística do remake de Vila Faia, a crescente overdose de novelas criou um enorme desgaste no produto, que precisa de ser, constantemente, reinventado. Talvez por isso, o guionista afirme, convicto, que “… a telenovela já deu o que tinha para dar, porque já não seduz e não surpreende tanto”. Apesar da grande formação na área e com anos nesta profissão, Rui Vilhena já deixou bem claro que nunca foi um bom aluno. E, no Liceu, era apenas mais um cábulas.
Porque escolheu o Brasil e os EUA para enriquecer a sua formação?
Os anos no Liceu, na altura estudava nos Salesianos, foram anos a cabular praticamente tudo da melhor aluna que se sentava à minha frente. Depois, no Brasil, formei-me em Relações Públicas e Publicidade e Propaganda porque foi sempre uma área que me fascinou e que gostava muito de estudar. Sempre trabalhei bem com criatividade. Terminado o curso, fui viver para os EUA. Comecei a fazer pequenos cursos de produção em televisão e estudei várias coisas até que me decidi a fazer o curso de guionismo na UCLA, em Los Angeles.
Como começou a sua carreira na área do guionismo?
Estive sempre envolvido, no Brasil, com pessoas ligadas ao meio artístico. Sempre fiz teatro. Nessa altura, ainda não estava certo daquilo que queria fazer. Com o tempo, percebi que a minha vocação era realmente a escrita. Quando fui estudar para a UCLA, havia alguns cursos ligados ao guionismo. Escolhi as cadeiras que me interessavam mais e, no meu caso, formei-me na cadeira de Cinema.
E o que o trouxe ao nosso país?
Creio que tem mais a ver com as minhas raízes e com a minha língua. Nasci em Moçambique, mas os meus pais são portugueses. Tenho família cá. Apesar de falar e escrever Inglês muito bem, nunca senti que isso estivesse na minha alma. Acho que quando escrevo em português é uma coisa que vem do coração.
Como é que um autor se consegue camuflar em tantos registos quando está a braços com um novo processo criativo televisivo?
Quando escrevi o Último Natal, um especial para a SIC, fiquei em casa uma semana a devorar filmes para crianças. A tentar perceber o que funciona e o que não funciona. Trabalho muito com referências e com tendências e tento compreender o que seduz as pessoas. Passa-se o mesmo com as sitcoms, com os dramas, com as telenovelas. É tudo uma questão de estudo e de preparação.
Que diferenças existem entre a linguagem, a escrita de um projecto para televisão e uma peça de teatro?
Mesmo para televisão há diferenças. A série, a sitcom e a novela têm linguagens diferentes. Em televisão, há que ser mais abrangente porque temos um público que vai dos 8 aos 80. Há uma linha a seguir, que, no caso da telenovela, é a linha de um folhetim. No teatro, podemos ser mais originais, mais agressivos criativamente e trabalhar mais com a imaginação do público.
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