“Novela sem mistério é como ‘sexo sem orgasmo’”
Bruno Cardoso
Concorda com as afirmações de que a sua telenovela, Ninguém como Tu, iniciou uma nova vaga do guionismo português?
Acho que, realmente, mudou um pouco a linguagem da teledramaturgia em Portugal. O Ninguém como Tu tinha uma linguagem completamente diferente em termos de construção e de ritmo de cenas. Sou uma pessoa completamente obcecada pela técnica e, até então, nunca tinha visto, que me lembre, uma telenovela portuguesa que tivesse essa linguagem técnica. Não há ali nenhuma originalidade minha porque apenas sigo as tendências. Acabo por encontrar o meu estilo em determinada técnica de escrita.
Algumas cenas de Ninguém como Tu
Que características incute nas suas telenovelas?
A telenovela tem características que são impossíveis de mudar. É bom que haja um grande mistério porque novela sem mistério é como “sexo sem orgasmo”. As pessoas ficam curiosas com aquele mistério e ao mesmo tempo que o tentam desvendar, ficam agarradas à história. Acima de tudo, pretendo sempre escrever uma história que emocione as pessoas e com a qual se possam identificar. Actualmente, preocupo-me em reinventar o meu trabalho porque, artisticamente, não faz sentido que o meu próximo projecto seja idêntico ao anterior.
Como resolve a questão da rejeição, por parte do público, quando desenvolve temas fracturantes, como o swing e a bissexualidade?
Não tenho nenhum problema em alterar aquilo que não está a agradar. A novela não é escrita para mim e há que pensar nas audiências, no cliente. Se pretendo trabalhar na mudança de uma mentalidade, chocar o público não me leva a lado nenhum. Acho que um dos temas de que as pessoas mais gostaram foi, justamente, o do swing. Andavam curiosas. A bissexualidade incomodou algumas pessoas. É natural que o que hoje incomode, daqui a alguns anos já não incomode tanto.
Cria papéis a pensar nos actores ou são eles que, posteriormente, os devem incorporar?
Penso primeiro nas personagens. Geralmente, a escolha do elenco é feita com a produção, ou seja, o autor, o produtor, o director de projecto e, no caso, a TVI. Admiro muito actores e é óbvio que há pessoas com quem eu gosto muito de trabalhar. Acho que o actor tem que fazer sempre uma personagem completamente diferente da última que fez, porque não faz sentido repetir aquele mesmo registo. É desmotivante, até.
Quando compara, por exemplo, Tempo de Viver com Terra Mãe que diferenças constata?
Houve uma evolução, em termos artísticos, brutal. Hoje em dia, as telenovelas portuguesas não ficam em nada atrás do que é feito lá fora. O primeiro episódio de Tempo de Viver, com tantos efeitos especiais, com as Torres Gémeas, denota já essa grande evolução. A produção nacional chegou a um ponto sem retorno.
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