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“Novela sem mistério é como ‘sexo sem orgasmo’”  Enviar por email Imprimir

Bruno Cardoso

Tempo de Viver, um novo ponto sem retorno na ficção nacional

Há quem considere as novelas estupidificantes. Concorda com essas afirmações?
Não creio que a novela seja estupidificante. Podem existir determinadas telenovelas que não sejam boas e não agradem, mas se pensarmos em telenovelas como a Gabriela, ou O Casarão, ou Vale Tudo, e mesmo telenovelas portuguesas que fizeram sucesso, é impossível colocar tudo num mesmo saco. Uma vez, um actor brasileiro disse-me algo curioso: “ Se a cada dez telenovelas, uma for muito boa, está óptimo!”

Colocar, em horário nobre, duas e três novelas seguidas desgasta o produto?
A telenovela já é, por si só, um produto desgastado e precisa de ser reinventado. Já deu o que tinha para dar, porque não seduz e não surpreende tanto.

Acha que há falta de guionistas em Portugal face ao acréscimo significativo de produções no ar?
Há poucos guionistas em Portugal e produz-se cada vez mais. A TVI cada vez produz mais ficção nacional. Temos a SIC, a RTP, a TV a cabo. Eventualmente, teremos ainda a televisão digital, as novas tecnologias, a Internet e os telemóveis. Temos ainda o cinema e o teatro, ou seja, não há guionistas que possam suprir a procura.

É por isso que participa activamente de workshops de escrita criativa?
Sim, formação é algo muito importante. O conhecimento é para ser dividido, não para ser guardado. Dá-me prazer estar com pessoas que estão a começar e a aprender, porque, aprendo, iclusive, mais com elas do que elas comigo. Seduz-me poder incentivá-las.

Como surgiu a Scriptmakers?
Fui convidado para ser director artístico de uma empresa de conteúdos e isso seduziu-me muito porque um dos objectivos da Script era, justamente, trabalhar na área de formação. A Script vai fazer dois anos em Maio e, actualmente, somos dez guionistas a trabalhar na produção de conteúdos. Uma fábrica de cultura, digamos assim. Algumas pessoas trabalham em sinopses para projectos futuros. Por enquanto, a “máquina” não parou, e esperemos que não pare.

Sendo uma novela escrita por várias pessoas, como se conseguem entrosar para viabilizar o resultado final?
Escrevo os capítulos iniciais e fica definido o tom da telenovela. O arranque é sempre complicado. Andamos ali perdidos, porque os próprios autores não têm intimidade com as personagens. Cada autor, por vezes, vê uma personagem de forma diferente, mas para isso existo eu, que estou ali e mando refazer as cenas. Os primeiros trinta, quarenta episódios é um pouco complexo porque, na realidade, o objectivo é que eu possa ler uma cena e não saiba, sequer, quem a escreveu. Somos todos clones uns dos outros.

De que modo está a ser feito o remake de Vila Faia?
Na Vila Faia sou apenas supervisor artístico. A novela está a sofrer um face lift. O pano de fundo permanece o mesmo, mas incluíram-se questões sociais. Deu-se um maior colorido às personagens, actualizando-as. Para já, a novela vai ter 120 episódios.

Que diferenças há a registar quando se supervisiona um projecto, como Vila Faia, ou quando se é o autor principal, como em Ninguém como Tu e Tempo de Viver?
Ao supervisionar um projecto, sinto-me como um professor. É interessante tentar perceber como é que as pessoas envolvidas na Vila Faia trabalham o seu método, como é que funcionam, como colocam em prática o seu lado criativo. Oriento-as para me certificar de que a história mantém o interesse, que os episódios têm ritmo e que está tecnicamente correcta. Numa novela, tenho que criar a história de raiz, tenho diariamente que escrever uma grelha. Tenho de levar o “barco até ao porto”, enquanto que na supervisão, vou apenas de passageiro.

É mais difícil elaborar um trabalho a partir de um texto de outro autor, como o Equador, ou criar um texto de raiz?
É mais difícil a adaptação do livro porque, para já, é uma obra de um outro autor e depois, porque é sempre complicado mexer numa obra que não é nossa. Quando a obra é minha, eu posso fazer com ela o que eu bem entender. O Equador é uma história fascinante e para mim foi uma honra e um desafio trabalhar nesse projecto. Eu percebo qual é a expectativa do autor e das pessoas relativamente à série. Há sempre expectativas porque cada um de nós visualiza aquela história de uma maneira.

Miguel Sousa Tavares tem acompanhado de perto o trabalho ou prefere ver, somente na televisão, o resultado final?
Ele tem acompanhado de perto e está tudo a correr muito bem. Vamos gravar em São Tomé, na Índia, no Brasil. Vai ser a maior produção de sempre. Não há previsão, sequer, de estreia, porque é uma adaptação muito difícil. O primeiro capítulo do Equador levou oito dias para ser feito, enquanto que numa telenovela isso é impensável, pois escrevemos um capítulo por dia. O capítulo do Equador, que fechámos com maior rapidez, demorou uns quatro dias.

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