Protestos da oposição ameaçam perpetuar a crise no Quénia
Pedro Peixoto Alvares
O estado de tumulto social e desarranjo político e económico que vive hoje o Quénia parece não ter um fim próximo. O principal partido da oposição, o Movimento Laranja Democrático (ODM), convocou, pela voz do líder Raila Odinga, um conjunto de protestos contra a situação política do país, em que vêem o actual presidente ilegalmente reeleito. Os protestos devem estender-se por três dias, Quarta, Quinta e Sexta-feira, e envolver 20 das principais cidades do país, começando todos às 10 horas da manhã.

Teme-se que estes protestos conduzam a situações de violência e a mais mortes, à semelhança dos confrontos que têm vindo a acontecer, desde o dia 27 de Dezembro, entre protestantes e a polícia, em que já morreram 500 pessoas e 250 000 ficaram desalojadas. Na opinião da oposição, estes novos protestos são inevitáveis, consequência da acção do governo de banir as manifestações públicas e recusar qualquer comunicação.
“As conversas entre o ODM e o outro lado desapareceram devido à recusa do outro lado de negociar connosco. Nós procuramos o diálogo. Trabalhámos muito, juntamente com outros partidos, para chegar a uma solução justa”, afirmou o secretário do partido, prof. Anyang Nyong’o, numa conferência de imprensa.
Por seu lado, o governo, encabeçado pelo recém-eleito Mwai Kibaki, acusa a oposição de instigar uma solução violenta e anti-democrática. O Ministro do Governo Local, Uhuru Kenyatta, disse aos jornalistas que “o diálogo não se inicia nas ruas. O diálogo implica que as pessoas resolvam as suas diferenças pacificamente, à mesa, e não destruindo propriedade e matando quenianos inocentes.”
A origem da crise deu-se com a acusação da oposição de que o governo terá pervertido o resultado das eleições de dia 27 e forjado uma vitória para Kibaki. Observadores locais e internacionais parecem concordar com a acusação. Proclamando pela justiça e exaltando a população a protestar, a oposição levou a sua indignação às ruas, onde se deram confrontos com a polícia, forçada a utilizar gás lacrimogéneo e canhões de água para dispersar a multidão.
Apelo internacional para o fim da crise
O Quénia é visto como uma das mais bem sucedidas democracias africanas e detentora de uma das mais pujantes economias do continente. Essa imagem desvanece-se à medida que a crise vai escalando e os números crescendo. Num esforço triplo para conter a situação, ONU, UE e E.U.A já procuraram as negociações entre as partes.

Kofi Annan, antigo secretário-geral das Nações Unidas, apelou a um entendimento entre as duas partes mediante um grupo diplomático. A pedido do presidente da União Africana, o líder do Gana, John Kufuor, Annan aceitou tomar parte nas negociações. “As negociações políticas não são um acontecimento, são um processo que pode demorar muito ou pouco tempo – tudo dependente da cooperação dos líderes”, afirmou. Annan deverá viajar até ao Quénia ainda esta semana.
Note-se que esta é a terceira tentativa do presidente da U.A. para serenar a situação queniana, depois da sua última tentativa, ontem, se ter revelado infrutífera.
Também os Estados Unidos da América já fizeram saber o seu “profundo desapontamento” com a situação. Jendayi Frazer, líder da diplomacia americana em África, deu a conhecer a posição de Washington perante a crise. “Ambos [Kibaki e Odinga] devem reconhecer as irregularidades na contagem dos votos, que tornaram impossível determinar, com certeza, o resultado final”. E deixou o aviso: “Entretanto, os Estados Unidos não podem conduzir apropriadamente os negócios com o Quénia.”
Também as previsões de Ban Ki-Moon, actual secretário-geral da Nações Unidas, não foram animadoras. “O potencial [da situação] para um futuro massacre mantém-se elevado, a não ser que a crise política seja rapidamente resolvida”, afirmou, no Sábado, num comunicado enviado pelo gabinete da O.N.U. de Nairobi, apelando igualmente para que o Quénia retorne ao “seu caminho pacífico e democrático”.
Fontes: Reuters, Público, The Nation.
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