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Os quilómetros da vida  Enviar por email Imprimir

Rui Catalão

Partem em busca de experiências, de conhecimentos, de amizades. Começam uma nova vida, longe de casa, da família, dos amigos que preencheram toda uma infância e uma boa parte da adolescência. Na bagagem transportam os sonhos, os desejos profissionais e a esperança de encontrar, a muitos quilómetros de casa, um cantinho onde montar um novo puzzle: a vida académica.

A quimera não se afigura fácil. Os obstáculos são muitos e os apoios, geralmente, escasseiam. Os primeiros choques dão-se logo no momento da matrícula e da procura de alojamento. É preciso encarar aquele mundo desconhecido, pleno de seres nunca antes visto, e lutar pela integração. É preciso encontrar um espaço acolhedor e tomá-lo como seu. É preciso estimá-lo.

O senso comum diz-me que partilhar uma casa com desconhecidos é tarefa árdua. No entanto, esse mesmo conhecimento diz-me que ocupar quatro paredes na solidão é ainda mais tortuoso. Obviamente tudo depende das pessoas, da personalidade de cada um, etc, etc. Mas uma coisa é certa: antes de encarar os estudos e toda a vida académica, estes “deslocados” têm de encarar o corte de raízes e a plantação de novas sementes.

(Contra mim falo, eu que só conheço decentemente a “minha” Lisboa. Não sei falar do Porto, de Coimbra, de Braga, de Faro, de Viana do Castelo. Sei falar de Lisboa. E Lisboa não é uma cidade fácil)

(continuando…)

O primeiro impacto é, sem dúvida, muito importante. Ser bem recebido, de sorriso aberto, é essencial para que tudo comece da melhor forma. Talvez por isso faça todo o sentido o conceito da “praxe”, na sua vertente puramente integracionista, sem maldade. Para quem acaba de chegar a um “admirável mundo novo” um sorriso vale a triplicar (ou até mais). Paralelamente, a natural tendência será a de procurar alguém com quem haja uma mínima identificação, seja pela proximidade física (uma mesma turma, por exemplo), seja pela proveniência (localidades próximas).

Mas isso não chega. A saudade invade a janela a cada noite. As recordações do que ficou para trás atormentam os momentos mais difíceis. E depois há o insucesso. Um estudante “deslocado” e sem sucesso escolar é um problema. Um problema grave. Nessa altura todos os defeitos, por ínfimos que sejam, saltam à vista: a cama que não é tão boa quanto a que está no quarto onde se viveu durante anos e anos; a vista da janela do quarto que só deixa ver o prédio da frente (ao invés do nascer do Sol, do mar cristalino, do jardim viçoso); o cheiro que paira no ar; a comida que não sabe tão bem quanto aquela preparada pela mãe. Tudo serve de pretexto para exacerbar a saudade.

Ainda assim, há que seguir em frente. Há que batalhar. Há que ser bem sucedido. E não há nada que dê mais gosto ver que uma pessoa aparentemente só neste novo mundo empunhando um sorriso triunfante. Do princípio ao fim.

Eu admiro-os…e podem crer que gostava de viver a experiência. E vocês?

 

P.S. - Uma semana a receber e ajudar “caloiros” oriundos de todo este Portugal é uma experiência deveras interessante. Recomendo.


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