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A Espiga  Enviar por email Imprimir

Joana Machado Duarte

papoila dia da espiga

Na quinta-feira foi dia da espiga. Há muito que esse dia perdeu para mim o significado de um feriado em festa cheio de códigos e rituais impossíveis de não serem cumpridos. Quando saía do metro em Benfica ouvi gritar “é o raminho da espiga!” e lembrei-me que era feriado no concelho onde moro. Mafra. 

Quando eu era mais pequena este era um dia de festa. Saímos cedo e íamos para os Moinhos, o “bosque” da Charneca. Durante todo o dia brincávamos para acabar afundados em canseiras felizes. Brincadeiras velhas e novas. Apanhada, escondidas, macaca, elástico, corda e a moda do volei. Nomes que agora me fazem sorrir. Agora que sou crescida. Para os lanches qualquer descrição de Enid Blyton ficaria muito aquém da realidade. Os nossos lanches eram muito mais coloridos que os dos Sete. Porque éramos mais, porque éramos amigos, porque éramos reais. 

A “espiga”, o ramo da espiga, motivo do passeio, era deixado para o fim. Pensávamos nos significados de cada elemento do ramo e procurávamos por ele em pequenos concursos de quem chega primeiro. Corríamos por campos de trigo salpicados de papoilas. Sim, existem campos de trigo (ou de cevada que às vezes nos enganavam!) como o quadro mas claro… mais bonitos. A oliveira significa o azeite. O trigo, o pão. As papoilas, o sangue e a vida. Os malmequeres, o dinheiro. A parra de uva, o vinho. Estava completa a receita que às vezes alindava-mos (palavra de outros tempos) com flores coloridas. Eram a alegria. 

O ritual cumpria-se todos os anos, sempre juntos. Mais importante que o ramo que renovávamos todos os anos para dar sorte, saúde e prosperidade era aquela desculpa para estarmos juntos. Ainda estamos mas não neste dia. 

Uma vez quando voltávamos para casa a Raquel, uma dos mais de Sete, desapareceu. Tinha caído num buraco. Esfolou os joelhos, arranhou os braços. Quando voltou disse que se tinha escondido de um “homem com cara de mau” que vira passar. Éramos pequenos mas já sabíamos mentir como os grandes. Nunca mais voltámos à Espiga.


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