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Pássaros  Enviar por email Imprimir

Joana Machado Duarte

pássaro pardal

Veio rasgar a paisagem. Rasgar como quem despedaça uma obra que era prima. Rasgar de um rasgo de futuro e comodidade.
Não há consenso mas o céu continua claro. Quando o sol brilha e as nuvens desenham carros voadores que não voam no asfalto desta estrada. À noite pequenas luzes cadentes dão mais brilho às estrelas reais.


Vrummmm, vrummmm…! Uma via em equilíbrio que trouxe o betão das coisas confusas que ora se destaca dos vales que serpenteia, ora se confunde com eles.

Só os pardais não deixam de temer o alcatrão. Mesmo em momentos de acalmia. Sobretudo nesses. Quando o calor emana em vapores febris e bamboleantes ou o frio cristaliza o orvalho da manhã.
Os melros, aves negras mas tão claras de vida, mudaram de margem. Os seus bicos cor de fogo encontram repouso na relva dos jardins que procuram esquecer o progresso. Deitada no chão o cheiro inebriante da terra leva-me de volta para onde nunca estive. Só sei que o futuro não chegou aqui. Porque o passado ocupa tudo. Enche o espaço do olhar dos papa-formigas, dos verdilhões, das aves de rapina, dos cucos.

Foram arrasadas casas que de novo se puseram de pé. Só um pouco mais abaixo. Mas as andorinhas não mais fizeram nelas os ninhos que coloriam a cal das paredes. Aos pombos vejo-os voar sobre os rails e separadores em coreografias complexas. Quando há acidentes os abutres esquecem mágoas contidas e absorvem (mais do que observam) a tristeza alheia. Formam bandos que se pretendem discretos, mas que depressa superam a grandiosidade da dança dos pombos.
A auto-estrada chegou ao campo e mudou a vida dos pássaros da minha aldeia.


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