À procura de um país sem medo
Filipa Galrão

O medo de viver tipicamente português começou na ditadura. A tal que deixou o terror no ar, que inconscientemente se manifesta na altura de saber e agir. O medo ditatorial ainda existe para atrofiar o progresso que a democracia deveria ajudar a desenvolver. Assim, a sociedade não critica porque tem medo, um medo inconsciente, uma parvoíce diria eu, pois temos a liberdade mas não a sabemos usar.
Havendo esta falta, este medo, o futuro urge em fazer-se no presente, rascunhado sobre o joelho, sem que se pense no depois, na consequência boa ou má. Não se constrói nada com objectivo porque nada nutrirá efeito algum para a nossa vivência colectiva.Viva a sociedade normalizada!
Continuamos a missão de procurar o medo e encontramos enfim um motivo maior – Portugal é um país pequeno que, como pequeno que é, só produz pequenas coisas. Tudo nos parece tão grande, como se fossemos sempre crianças, e ao sê-lo nunca construímos (ou inscrevemos) um passado. Saltamos de pequena em pequena coisa criando a ilusão de estarmos a escrever uma história contínua. Viva ao conforto da pequenez!
João Gil rebusca no seu livro, Portugal Hoje - o medo de existir ,um termo pesado – Síndrome – neste caso de Lilipute, para caracterizar a ilusão de liberdade dos portugueses, o nosso pequeno infinito onde nos movemos no corpo e mente, sonhando ser grandes quando “ainda não ajustamos a nossa estatura real à imagem que dela possuímos”. São os modelos antigos que teimam em imperar, em manter-nos no mesmo sítio, pequeninos, fechadinhos. Mas como? Se a economia prosperou nos anos 80, se modificaram hábitos, se transformou o espaço físico, se cultivou a auto-estima do país…Porém as mentes continuaram pequenas.
Enquanto em tempos o ambiente social, mesmo fechado, tinha tudo de familiar e afectivo, onde se vislumbrava ao menos a inscrição individual de cada um nas relações de amizade, actualmente não existe nada que nos faça sentir bem como essa afectividade social do passado. O país não se desenvolveu com esta riqueza e pseudo transformação, está sim a desaparecer, porque não se tem inscrito na Europa, porque vivemos no antigamente sem integrarmos como deve ser as transformações de que somos alvo. Acabem-se os Vivas, não podemos ser crianças eternamente.
Que não nos falte também a burocracia para compor a jarra que assenta no tampo do país. O adiamento de tudo, o medo de encarar o real. No fundo, tudo se evita com medo de não se estar à altura (note-se novamente o peso do tal síndrome liliputiano).
A bela “ flor” burocrática serve, pois, para impor a rigidez na política, nas escolas, na vida social, mas murcha quando implementada numa sociedade arcaica – física e mentalmente – como a portuguesa. O exercício do poder que não é senão impotente, a fuga à lei, a “prática do desenrasque”, tudo se interliga com a acomodação da não acção, e nada como a burocracia para criar a ilusão de que tudo se faz, de que se caminha para uma finalidade. Esta “constitui o melhor meio de adiamento e paralisação da acção”. E toca a arranjar desculpas, sempre com a burocracia na lapela e o medo no coração: a explicação para a corrupção, a falta de coragem, inércia, adiamento, tudo justificações para que nada, como sempre, se inscreva.
O medo é, pois, uma patologia crónica do país, bem como o pessimismo e tantos outros substantivos que, depreciativamente, nos poderiam definir. Porém, julgo que não devemos olhar para Portugal como se de um quadro de pequena dimensão e sem profundidade artística se tratasse. É preciso vislumbrar milagres e salvadores para lá da tinta ténue do mesmo, recordar a imaginação, sensatez, esforço, sacrifício, moderação e ousadia que ajudaram a transportar a pimenta da Índia, o ouro do Brasil e os escravos de África, e que nos farão agir num futuro que, aliado à tecnologia e à adrenalina do medo, se pode adivinhar risonho para Portugal. Apenas não nos podemos render à temível imagem exterior do quadro.
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