O vício da estupidez
Filipa Galrão

Um Homem de meia - idade desce a calçada a cambalear. Vai depressa, não porque quer, mas porque não tem força que lhe permita aguentar-se nas pernas e andar mais devagar. Acaba por cair ofegante, de olhos esbugalhados, afogados num mar turvo, que empurram o seu pensamento para tudo aquilo que ele sabe que é mas não quer ser. E chora. De mágoa, de arrependimento. Chora porque está vivo e preferia não estar.
Pensa no que perdeu desde que obrigou o seu corpo a vender-se ao vício num acto de cobardia. Quão mais fácil não era afogar-se? Quão mais fácil não é, agora, culpar o vinho de todos os seus males? E de que lhe vale isso? De que lhe vale ser irresponsável, se jaz triste e sozinho no meio da calçada? Ninguém lhe estende a mão. É mais um moribundo que serve para estragar a bela paisagem da cidade.
O sol enche-lhe a face e seca-lhe as lágrimas, porém, a angústia continua e a agonia persiste, moendo-lhe o estômago que, habituado, recebe o amargo do álcool como um aconchego de velho inimigo.
O homem acaba por adormecer mas não sem antes ouvir os risos dos que passam e que, em vez da cruel indiferença, lhe dirigem comentários maldosos que só definem o homem em que se transformou.
A noite cai fresca e de céu estrelado, e o burburinho fá-lo acordar. Levanta-se trémulo e pouco seguro. Percorre a calçada até ao fim da rua e senta-se num banco de jardim. O olhar já não está esbugalhado e o mar turvo deu origem a um vazio profundo.
Esta é a velha imagem do bêbado tradicional, aquele que, numa relação semiótica, configuramos, quando lemos sobre o tema, quando olhamos uma taberna ou, simplesmente, quando vemos escrito num papel a própria palavra “bêbado” ou “bebedeira”. Este é o bêbado que bebe vinho carrascão, barato, para afogar uma qualquer dor ou mágoa.
No entanto, qual é afinal a diferença entre este bêbado e os verdadeiros bêbados de hoje em dia? Eu digo nenhuma. O velho vinho tinto é substituído por shots refinados e, em vez de se beber por vício, bebe-se socialmente. Ainda que o objectivo difira, a consequência será sempre a mesma - o desenvolvimento de uma dependência que, por um lado nos mostra homens sujos caídos na calçada e, por outro, um grupo de adolescentes vestido como manda a moda, a pôr o futuro e a própria vida em causa.
No fim da noite todos os bêbados são iguais: o velho de olhar vazio, sentado no banco de jardim, e o jovem agoniado. O primeiro deixou-se levar pelo vinho enquanto que o segundo faz gala em trazê-lo consigo.
Artigos relacionados:


