O Amor em Gorz
Joana Azevedo Viana
A bomba raspou-me o braço durante uma discussão acesa com uma amiga de debates e intimices político-sociais. “É como o suicídio do André Gorz. Não imagino nada mais bonito…”
A discussão, por acaso, não rasava sequer o tema ‘Amor’. Falávamos há horas do jornalismo literário de Lawrence Wright e do peso da religião e da política num mundo moderno, de certa forma, bipolar: Ocidente vs. Islão, Terrorismo Árabe vs. Suspensão Ocidental. Falávamos da base esquizofrénica das religiões e da necessidade primordial da existência das religiões. Passámos inevitavelmente para a Companhia Vs. Solidão, tema recorrente de debate entre descrentes relacionais e apaixonados românticos. E então ela sai-se com esta: “É como o suicídio do André Gorz. Não imagino nada mais bonito…”
André Gorz matou-se na semana passada, na sua casa, em França, juntamente com a sua mulher.
Filósofo existencialista da linha de Jean Paul Sartre (que foi seu mentor) mas também sociológo, seguidor fiel de Jurgen Habermas e da Escola de Frankfurt, Gorz destacou-se principalmente como sendo um dos fundadores do Le Nouvel Observateur; crítico de esquerda feroz, preocupado com questões ambientais e com a distribuição do trabalho, havia afirmado há alguns meses que tudo o que escrevera até então não fora ele que o escrevera, mas sim a sua mulher, porque, sem ela, “nada disto existia”.
O suicídio foi simples. Gorz e a mulher foram encontrados mortos, deitados lado a lado na cama do seu quarto, rodeados por cartas escritas por ambos para família e amigos próximos. Simples foi também a decisão, fazem parecer.
A mulher sofria de uma doença degenerativa há já alguns anos e ambos sentiam que já tinham vivido o que queriam. Nada os prendia à terra para além do outro e para assinar o pacto de liberdade eterna conjunta, as suas vidas culminaram naquele ponto.
Não sei se acho isto doentio. Na equação “descrentes relacionais vs. apaixonados românticos” eu sou, assumidamente, uma descrente relacional, por uma razão una que degenerou em várias (que não vêm aqui ao caso). De qualquer das formas, por mais cínicos que sejamos em relação ao amor, o que podemos contra isto? Tento encontrar um argumento para usar numa próxima discussão acerca do suicídio de Gorz e não encontro nenhum. Queria não ficar muda, repentinamente, como nesta discusão, da próxima vez que o tema fosse trazido à baila. Queria provar que o meu cinismo tem raízes fundas e lógicas.
Não sei se acho isto doentio. Isto que também envolve uma vida que foi sempre a dois, porque ter filhos, para além de o fazer descambar para uma posição em que corria o risco de ser o mau pai que o seu fora consigo, seria, simultaneamente, a obrigatoriedade de assinar um acordo legítimo de partilha da esposa. Gorz não queria que ela fosse de mais ninguém. Nem ela queria que ele fosse de mais ninguém. Retórica bonita? Não… Isto aconteceu mesmo assim.
Não sei se acho isto doentio.
Sei que fiquei muda. Chopin deu lugar aos Arcade Fire e estes estenderam o tapete vermelho a Rodrigo Leão. Ficámos ali com a aparelhagem e uns com os outros.
Ela convencida do (e pelo) amor. Eu calada.
Ao menos é uma notícia. André Gorz suicidou-se com a mulher. Na minha cabeça, vou tentar que seja sempre o André Gorz do Le Nouvel Observateur primordial, por oposição ao André Gorz que se matou com a mulher da maneira mais literariamente romântica que podia. (Mas sei que, quando falar dele, ele vai ser o André Gorz que me marcou porque fundou o Le Nouvel Observateur e que se matou com a mulher da maneira mais literariamente romântica que podia. E por amor!).
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