Tania Head e o tabu moderno da necessidade de atenção
Joana Azevedo Viana
Não deixa de me espantar a facilidade com que as pessos inventam histórias sobre si próprias com nenhum intuito para além do de atrair a atenção e compaixão dos outros.
Não condeno a atitude. Espanta-me, isso sim, que vá continuando a ser necessário dar contornos de tragédia grega a vidas (só) aparentemente monótonas para se ser o centro do interesse da envolvente.
Saiu há umas semanas, no New York Times, um artigo que põe em causa a veracidade da história de uma sobrevivente aos ataques do 11 de Setembro.
Tania Head, que alega ter sobrevivido ao embate do segundo avião na torre sul do World Trade Center, com queimaduras extensivas por todo o corpo, vê o seu testemunho ser posto em causa passados seis anos desde o acontecimento.
As razões são justas e naturalmente questionáveis. Entre as contradiações do seu romance novelesco contam-se falhas de concordância com o passar do tempo (no início do anúncio público da sua história, Tania dizia estar noiva de um outro funcionário do WTC, que morreu na torre norte nesse mesmo dia; mais tarde, eles afinal já se tinham casado oficiosamente no Hawai e viviam juntos há algum tempo com o seu golden retriever, Elvis), contam-se irreconhecimentos por parte de algumas pessoas indirectamente envolvidas na história (a família de David, o suposto noivo/marido, diz nunca ter ouvido falar de nenhuma Tania Head e diz que David nunca viajou para o Hawai nem nunca se mudou do seu apartamento em Manhattan, onde morava com um colega de quarto; da mesma forma, as universidades de Harvard e de Stanford, onde Head afirma ter tirado os seus cursos, garantem não encontrar registo de nenhum ex-aluno com esse nome, assim como a empresa Merryll Linch, onde Head supostamente trabalhava aquando dos ataques, diz que não contém registo de nenhum funcionário com esse nome), contam-se mudanças bruscas na história (inicialmente, Head contou a quem quisesse ouvir que trabalhava na fusão da Merryll Linch com outra empresa do 98º andar da torre Sul naquela manhã; mais tarde, a Janice Cilento, uma social worker que faz parte da direcção do Survivor’s Network, onde Head trabalhou até à publicação da história do NYTimes, afirmou que estava naquela torre, a 11 de Setembro, para se candidatar a um estágio na Merryll Linch) e uma fábula romanceada onde entram um bombeiro que apagou as chamas do seu corpo e a arrastou pelas escadas da torre Sul mas que acabou por perecer a meio caminho e um homem (de identidade conhecida apenas pelo Times, para protecção da identidade) que, sabendo que ia morrer ali, lhe entregou a sua aliança para Head entregar à sua esposa e onde há lugar para erros até no próprio nome (ao que parece, Head não é Tania mas Alicia Head).
A questão que se coloca, tendo em conta que Head nunca obteve qualquer benifício financeiro com a história que contou, é, acima de tudo, porquê. Se Head tiver inventado toda esta novela de cordel em torno dos ataques do 11 de Setembro (com uma história digna de um nobel da literatura, tal a atracção que exerceu sobre todos os que a ouviram e a conheceram), como se pesa a ética, por um lado, e a importância, por outro, de tal acção?
Até há umas semanas, havia estórias do 11 de Setembro e depois havia a estória de Tania Head. Ela sobreviveu a um ataque mortal e certeiro que ceifou as vidas de (quase) todos os que se encontravam nas torres gémeas e viveu para o contar. Ela acordou semanas mais tarde no hospital (não se sabe em qual) para descobrir que o seu noivo tinha morrido na torre norte, naquela manhã fatídica. Ela tinha uma aliança para entregar a uma viúva e tinha um encontro para marcar com a família de Crowther, o bombeiro que a salvou antes de morrer queimado (numa sala privada, longe do frenesim público dos restaurantes, que ainda hoje a incomoda, referiu).
A fantasia nunca foi posta em causa antes do artigo do New York Times. Agora, Head foi dispensada das suas funções como membro da direcção do Survivor’s Network e como guia ao Ground Zero (na foto, com Giuliani, o antigo mayor da câmara de Nova Iorque).
Foram-lhe pedidas declarações tanto por parte do New York Times como da revista Time, nas últimas semanas, para lhe dar oportunidade de se defender antes da publicação das respectivas peças, mas a advogada de Head diz que ela não tem nada a esconder nem qualquer declaração a fazer (?).
Se algum dia a história ficar esclarecida, quero estar na fila da frente para entender o fenómeno. Não porque queira julgá-la, mas porque tenho curiosidade em perceber, com todos os factos no colo, o que a levou a isto. Não imagino tristeza maior do que ter de inventar uma história completamente surreal e sofrida para ser centro de atenções e de piedade; ou divertimento maior.
Está-se aqui perante um caso Maddie ao contrário, embora acredite que é bem mais fácil corroborar ou contrariar factos neste caso, na toda poderosa e hegemónica América do Norte.
Toque-se na ferida real de tudo isto: a psicologia das pecinhas da multidão social do planeta nunca é explicada pragmaticamente. Isto é pura necessidade de atenção, sem condenação inerente. Isto é um tabu tão grande como a religião, nos dias que correm. Se se enfrentassem os casos de frente e se mostrasse às pessoas que podem fazer pela vida sem inventarem histórias mirabolantes acerca de relidades, que por mais sofridas que tenham sido, não o foram por nós, isto corria melhor. Ou, se calhar, fossem todos os problemas estes e nem estávamos tão mal. Não sei qual escolho. Não neste momento.
No 11 de Setembro de 2001, o que aconteceu apelou ao lado emocional de toda a gente, de uma forma ou de outra. Como é referido no artigo da Time, se se pensar um pouco todos contámos histórias de como o primo da tia da nossa melhor amiga estava nas torres gémeas aquando dos ataques. Eu própria, com 14 anos de idade, lembro-me de ter ficado de coração nas mãos juntamente com o resto da família quando soubemos dos ataques: uma tia, que também era cunhada e nora, trabalhava em frente às torres gémeas e àquela hora tomava o pequeno-almoço na torre Sul. A história de como ela sobreviveu refugiando-se no abrigo do banco onde trabalhava e sendo evacuada de Manhatan ao fim da tarde desse dia contei-a eu vezes sem conta ao longo dos anos.
A necessidade aqui, que ultrapassa a necessidade egocêntrica de atenção, será talvez a de fazer parte de algo maior. O sentir que se está dentro da acção e que partilhamos da dor das pessoas, das famílias, dos EUA, do Ocidente, então com o orgulho recém ferido.
É um euro 2004 menos alegre.
Mas até que ponto é admissível ou tolerável a apropriação de um drama que não é o nosso para monopólio de atenções? E até que ponto é esse ponto discutível?
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