Uma tarde normal
Alexandre Soares
Era uma tarde como tantas outras. Os pés enterravam-se na areia em busca de conforto enquanto os olhos varriam a paisagem em busca de um sítio onde se pudesse descansar a vista. Às tardes de quarta-feira, em início da Primavera, não se reconhece o mérito de reunir pessoas na praia e esta não foi diferente. Nessa dia, faziam-me companhia o sol, o voo das gaivotas e um grupo de velhotes que atrás de mim prosavam num banco.
O ambiente escurece. Não sei se hei-de nomear responsáveis as nuvens, ou os meus olhos. Não, a culpa não é dos meus olhos. Também não é das nuvens, no máximo seria do vento – as nuvens não têm vontade própria. Há menos luz, sim. Mas a responsabilidade é do sol. Está triste!
Desconheço a razão de tal angústia, mas, com o sol triste, brita cor de cinzas conquistou o espaço da areia fina e magoa-me os pés descalços. O rio, antes dividido entre o azul e o verde, agora hesita entre o prateado e o azul, daquele escuro. Os velhos atrás de mim continuam a conversar, mas agora, com o sol triste, as suas conversas parecem lamentos assustados, murmúrios sussurrados.
Nesta parte do rio, ou do mar (esta é uma vantagem da ignorância: podemos dar às coisas os nomes que quisermos que elas nunca reclamam), dois navios navegam em direcções opostas um em frente ao outro – são fragatas e movem-se numa dança perigosa. Em Portugal existem três: a Corte-Real (F332), a Vasco da Gama (F330) e a Álvares Cabral (F331). Não sei quais é que hoje distingo no horizonte, mas agora, com o sol triste, parece que se desafiam mutuamente num duelo de proporções épicas. Os velhotes atrás de mim concordam: «Parece que voltamos à guerra-fria». Também não devem ser assim tão velhos, penso. Ficamos à espera da colisão.
O sol continua triste e da estrada marginal vêm sons incómodos e fico a pensar na origem do nome desta via. Será resultado de algum silogismo lógico simples: Tudo o que está na margem do rio é marginal ao rio, logo se a estrada está na margem do rio, é a estrada marginal?
Na hora de ponta, a impetuosidade que o regresso a casa imprime nos motores dos automóveis corta o vento. E agora, com o sol triste, esses sons parecem-me aviões a rasar terreno num bombardeamento. Não sei onde caiem as bombas, mas talvez ali: ao longe, na outra margem. Nenhum dos barcos desiste e as suas rotas mantêm-se: um contra o outro.
Quem também se prepara para a batalha é o “Albacora” – o nosso velhinho submarino português, que entrou ao serviço na marinha Portuguesa a 1 de Outubro de 1967. Este sim podia ter participado na guerra-fria. É que os submarinos têm uma característica que os seres humanos não têm: mal nascem podem ir para a guerra. E têm outra em comum com as pessoas: envelhecem.
O “Albacora”, velho, mostra-se de perfil e prossegue viagem com o sol triste, algures entre o acamado e o enterrado.
No rio, o baile das fragatas está a chegar ao fim. Nestes derradeiros momentos finais os dois navios agigantam-se mas não quero saber como acaba esta dança. Não sei o quê, mas algo me faz deixar esta praia. Vou-me embora, como fez o sol triste.
Perdi muito tempo a pensar porque nessa tarde não esperei alguns momentos para saber o destino das fragatas que se desafiavam. Hoje, à distância de alguns meses, percebo: é que, tal como o sol, não gosto de guerras, nem mesmo das que são a brincar.
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