Teoria Sobre os Seguranças
Eliana Silva
Era uma vez um segurança chamado Ricardo Nuno que tinha olhos pequeninos e era um homem dedicado ao seu trabalho.
Existem várias profissões.Existe, inclusive entre a panóplia de profissões periféricas e que constituem diversas categorias de actividades profissionais, a categoria que me concerne a apresentar: o profissional de segurança, ou seja, o vulgarmente securita.
E englobemos aqui, os seguranças do centro comercial, da estação do metropolitano ou da estação dos comboios. Inevitavelmente, devido à minha maior exposição ao primeiro espaço, será sobre ele que a minha análise vai incidir.
Os seguranças dos centros comerciais, portanto. Se o leitor tiver necessidade de circunscrever de forma minuciosa o espaço, pense no centro comercial Colombo ou em alternativa, na estação de metro do Campo Pequeno.
Os seguranças são, então, personagens andantes que circulam calmamente no seu posto de trabalho, que todo ele acaba por ser ambulante. Os seguranças têm nomes como Ricardo, Eduardo ou Nuno e são, genericamente, homens altos, brancos pretos ou mestiços. Nunca ninguém viu um segurança chinês, indiano ou oriundo da Europa de Leste. Ah! E são normalmente feios e com olhos muito pequenos.
No seu dia-a-dia rotineiro, o segurança Ricardo Nuno veste a sua farda com o mesmo orgulho que um pai pega no filho recém-nascido. Ele sabe que aquela vestimenta pode representar ou uma criança desaparecida, um adolescente delinquente ou um idoso com insuficiência renal. Isso sim, era um dia em cheio! Aquela jarda seria glorificada à ínfima fibra.
Ora, de traje vestido e botifarras calçadas, assim começa um eterno dia de trabalho. O conceito de efeméride não é por ele conhecido em nenhuma altura do dia. Assim, que ultrapassa a porta endereçada de “Zona reservada ao Pessoal”, o segurança Ricardo Nuno vai interiorizar três funcionalidades a serem executadas ao longo do seu turno: Manter uma postura recta e trombuda, preservar um bovino silêncio e ser o mais útil e prestável.
O segurança Ricardo Nuno tem um mecanismo de pensamento ruminante que paira em cada célula memorial e durante a sua passeata laboral, ele vai canalizar todo o sumo de informação que apreendeu desde que está naquele trabalho.
Sim, porque, pequena nota, o trabalho animalizado pelo segurança Ricardo Nuno é um contra-tempo, uma ocupação temporária, secundária ou um meio para chefe de segurança (aqueles que brincam com as câmaras).
Retomando, o segurança Ricardo Nuno não é propriamente activo, isto é, ele não faz basicamente nada, e não tem, nem afecto, nem emocionalmente, qualquer contacto com um agente civil. E deste modo, quando ele se apercebe de uma situação onde possa desbravar toda a sapiência sobre segurança-num-centro-comercial e vai dirigir para esse momento toda a sua força e eficácia no trabalho. Trocando. Depois de 5horas seguidas sem mexer uma palha, fixando o olhar no vazio, nas pernas apetitosas de uma senhora ou no rabo suculento de um cavalheiro, Ricardo Nuno descobre uma jovem que dormita nuns sofás ou uma senhora desorientada; nessa altura, ele sente que vai poder dar uma razão de existência àquela profissão moribunda; ele não vai somente testá-la mas principalmente praticá-la. E agora, já o segurança Ricardo Nuno dissecou sobre todo o tipo de lojas, saídas e acessibilidades do centro comercial, se a senhora estiver perdida, ou sobre a boa conduta, a toxicodependência ou o insucesso escolar, se a rapariga se tiver deixado dormir.
E assim, Ricardo-Nuno sente-se um segurança dedicado e útil. Perseguindo possíveis crianças até três anos, velhinhos com mais de 65 e adolescente rebeldes. Mesmo que apenas estejam a respirar ou a passear no centro comercial, senão ele enlouquecia.
Era uma vez um segurança chamado Ricardo Nuno que tinha olhos pequeninos e era um homem dedicado ao seu trabalho.
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