Violeta tem janelas na mente
Eliana Silva
A Violeta gosta de andar de transportes públicos. A mistura de que faz parte quando entra num qualquer metropolitano ou autocarro faz com que se sinta uma milésima partícula duma massa amorfa. Ali, é igual a todos os outros; o objectivo que os move até ao stressante local de trabalho, ao nervoso encontro, à pessoa roubada ou ao desassossego do lar é o mesmo para todos os que se encaminharam naquele veículo.
A Violeta tem janelas na mente. Constrói baús na sua cabeça onde agrupa cada tipo de pessoas. A Violeta prefere atribuir tipologias às pessoas que observa diariamente a dar-lhes nomes. À Janela é o melhor sítio para se estar. A Violeta sente que, ao olhar para as pessoas acaba por conseguir conhecê-las melhor, porque assim que elas ficam à sua disposição na sua janela, edificam juntas uma relação íntima.
A Violeta observa o que a rodeia, embora a sua distracção faça com que muitas vezes acabe por se baralhar com o rodopio das suas personagens. À Janela é o melhor sítio para se estar. Senta-se a uma janela para observar o que está diante dos seus olhos, somente aquilo a que a sua retina alcança. Sabe-lhe a pouco e entra num autocarro que percorre a cidade; a informação acaba por ser demasiada. Decide ver quem parte. O terminal rodoviário é claustrofóbico e com demasiadas pessoas feias. Enquanto caminha para casa, a enorme fila para um autocarro chama-lhe a atenção. Senta-se no lado contrário da rua e olha.
São 17h32 e estão dezoito pessoas na fila para apanhar o autocarro. O barulho do motor dos táxis desconcentra-a. O motor dos Mercedes a gasóleo torna-se quase ensurdecedor. É o som que está mais perto. A confusão auditiva obriga-a a uma árduo exercício para melhor encaixar as pessoas (que agora já são vinte e seis) nas suas arcas mentais. Passa, repentinamente um autocarro e desorienta-se de novo.
Violeta começa a dividir aquilo que ouve. Primeiramente, são os inevitáveis táxis masculinos, outro autocarro (já são 17h39 e a fila diminui consideravelmente), um forte ruído animalesco é o seguinte que ouve, o que acaba por ser normal já que tem o jardim zoológico nas suas costas. A Violeta não gosta muito de animais e os pássaros (a que ela não sabe dar nome) chegam até a meter-lhe medo. Aborrece-lhe que eles a incomodem porque fazem cocó em tudo o que é sítio, como no sapato preto de hospital daquela senhora mais ou menos bonita que entra no autocarro. Outro autocarro que abafa os guinchos das araras. Agora ouve os carros numa estrada lá ao fundo. Nos efémeros 15segundos em que se fixa, conclui que no eixo norte-sul passam muitos camiões mas todos eles muito parecidos. Não toma atenção.
A Violeta volta à fila de autocarro que aumentou novamente. Entre um encaixe e outro, o banzé (rapidamente se transformou nisto) de carrinhos de bebés despertam na sua mente uma outra caixinha: Barulhos de crianças. É difícil distinguir as risadas, os pedidos, os choros dos pequenos seres, dos zurros, zunidos, dos latidos, dos animais que estão na sua retaguarda. Sabe que estas pessoas que ouve atrás de si são mais bonitas do que aquelas que estão à sua frente. Só os pequenos seres têm brilho, é verdade, mas a senhora que agora se atravessa à sua frente com um balançar peitoral muito intenso, bastante atractivo ser mais-ou-menos. Ela acaba por ser uma amostra daquilo que vê. As pessoas que aguardam qualquer autocarro são mais-ou-menos. Nem bonitas nem feias.
A Violeta ficou com a certeza de que aquilo que ouviu na sua retaguarda era produzido por seres mais bonitos. Ou pelo menos, era isso que parecia. Ela não via muito bem. Apenas ouvia para encaixar. À Janela é o melhor sítio para se estar.
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