Famosinho, o tiraninho
Joana Fernandes

Nas palavras de pessoa,
«Este Senhor Salazar
é feito de sal e azar.
Se um dia chove,
a água dissolve
o sal,
e sob o céu
fica só o azar, é natural.
Oh, com os diabos!
Parece que já choveu…
Coitado do tiraninho!
Não bebe vinho
nem sequer sozinho…
Bebe a verdade
e a liberdade,
e com tal agrado
que já começam a escassear no mercado.
Coitadinho
do Tiraninho!
(…)
é
certo e certeiro
que isto consola
e nos dá fé:
que o coitadinho
do Tiraninho
não bebe vinho
nem até
café.»
É preciso dizer-se que António de Oliveira Salazar está feito um tiraninho moderninho. Atirado para as luzes da ribalta pela polémica e subsequente vitória no programa Os Grandes portugueses, que passou na RTP, é vê-lo agora, tal qual estrela de Hollywood, entre as luzes dos palcos e as das lojas de livros: ele é férias com Salazar, ele é Salazar, o Musical; ele e as suas máscaras, ele e os seus amores, ele visto pelos seus próximos… Enfim, uma panóplia de estórias da história do tiraninho lusitano.
Faz-se jus ao ditado popular que canta que não há fome que não dê em fartura: este senhor, que durante tanto tempo afirmou não ter dinheiro para os que choram, muito menos para os que riem, apertando os cordões à bolsa do Estado, alimenta agora a indústria cultural que serve a plebe a que tinha tanto horror.
É importante lembrar, de facto, mas – sem nos perdermos entre o barulho das luzes – é muito, muito, mais importante não esquecer.
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