Banda histórica faz História
Joana Azevedo Viana
Apenas uma elite muito privilegiada idolatra Dave Matthews Band pelo país fora, pensava eu, na minha inocência, ao longo dos anos. Contudo, com a venda de bilhetes para o concerto de sexta-feira, 25, esgotada há meses, a realidade talvez não seja bem essa.
Protagonismo egocêntrico à parte, sei admitir o sintoma enquanto coisa boa. Porque não é qualquer pessoa que ouve Dave Matthews Band e gosta e que percebe realmente tudo o que envolve as suas músicas.
Não são músicas fáceis, fáceis no sentido de serem ligeiras ou agradáveis sem porquês. Para gostar das músicas do Dave Matthews e da Banda, é necessário ter uma capacidade de envolvimento e um grau de inteligência empírica musical acima da média.
Porque cada música de Dave Matthews é um mundo em si própria; uma que nunca se veste de outras cores para ser o êxito musical do mês seguinte. Cada uma dessas músicas tem o impressionante efeito de fazer pensar, muito ao jeito brechtiano; talvez até mudar mentalidades - se se estiver na disposição certa.
Nascidos em 1991, os Dave Matthews Band foram já considerados uma das melhores bandas de sempre. Os Pearl Jam, banda ícone, nascida quase ao mesmo tempo, afirmaram que a banda do Dave é única, igual apenas a si própria e tocada pela genialidade; o que não deixa de ser ligeiramente irónico quando se pensa que os próprios Pearl Jam são considerados por muitos como uma das melhores bandas da História musical.
Quando, em 2003, Dave Matthews lançou um álbum a solo, todos os fãs, principalmente os europeus, deitaram as mãos à cabeça; a banda terminava sem nunca ter visitado o continente. No final do ano passado, contudo, a banda anunciou uma tour europeia, a primeira tour europeia; Portugal estava no mapa a 25 de Maio.
Da possibilidade de se ouvir o Carter Beaufourd, africano ligeiramente assemelhado a um armoire guarda-costas de discoteca, a tocar “djambés gigantes” ao lado do Dave Matthews e as suas inconfundíveis voz e guitarradas, os ânimos exaltaram-se no dia da notícia para nunca mais acalmarem. A onda de felicidade que se espalhou era palpável, sobretudo nessa primeira semana pós-anúncio.
Juntamos-lhes um violinista reconhecido internacionalmente, Boyd Tinsley, um baixista prodigioso, Stefan Lessard (recomendando pelo guru do jazz de Charlottesville, John D’earth) e um saxofonista do mesmo mundo, LeRoi Moore, e o desafio está lançado.
Se algum dia tentou descobrir um concerto realmente imperdível, esse concerto é este.
A banda do Dave Matthews escreveu um dia uma canção chamada Dancing Nancies. Nessa canção pergunta-nos se nunca pensámos em ser outra pessoa, se nunca pensámos que poderíamos ser outra coisa qualquer que não aquilo que somos. E pergunta se vale a pena; se valerá a pena olhar para o céu, abrir a boca, preocuparmo-nos e despacharmo-nos… Se vale a pena isto. Viver suspenso por um único concerto…
Sexta-feira, no Pavilhão Atlântico, pelas 21 horas, vou responder-lhes que vale.
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