Insólito
Susana Paula
Mais um daqueles dias em que mais carregada não poderia estar: uma data de cadernos, uma sebenta e, ainda por cima, um rolo. Sim, um rolo de cartão, daqueles tão típicos entre os alunos de artes, usados para transportar folhas, cartolinas e afins, de tamanho A3 ou maior.
O meu estava cheio de cartazes d’O Amador – os cartazes que afixei pelas faculdades lisboetas.
Já dentro do metro, procuro um lugar para me sentar. Sento-me à frente de um velhote. Está calado, mas observa-me:
“Com que então, hein? Já tem o canudo!” Dá-me uma palmada no rolo.
“Não, ainda não. Mas já está quase”, respondo-lhe com um sorriso esgotado, produto de um dia cansativo.
“Ah, a menina vai ver que vai conseguir”
“Espero que sim.”
Espero mesmo, pensava. Os meus pensamentos são invadidos, passados uns segundos, pelo simpático velhote. A derradeira pergunta:
“De que área é a menina?”
“Jornalismo”, respondo com aquele orgulho inerente a quem tem gosto naquilo que faz.
“Ah…”, responde o velhote.
“Com que então a menina vai ser jornalista” (…) “Sabe que os jornalistas sabem muitas coisas… mas os editores é que não os deixam publicar… ou porque vão contra o patrão ou contra quem lhes dá dinheiro”.
Ia ripostar, responder, reclamar, defender… Mas, intrinsecamente, sabia que aquele velhote meio envergonhado tinha razão. Meio que sorri, meio que concordei. Enfim, fiquei calada.
Entretanto, entrara uma senhora no metropolitano. Meio velhota também, com uns óculos de massa e um vestido de fazer qualquer miúda de 16 anos sentir-se miserável. Sentou-se ao meu lado. Esta jovem velhota, com quem simpatizei só de olhar, ouviu-me a dizer que estou a estudar jornalismo. E uivou:
“O jornalismo de hoje em dia é uma porcaria! Não serve para nada! Não é como o de antigamente… Os jornalistas de hoje são todos uns vendidos!”
(…)
Perante isto, lá encontrei um último sorriso para lhe responder: “olhe, [como quem não pode fazer mais nada] estou a estudar para mudar isso”.
E, apesar de sair rapidamente na sua estação, ainda me deixou ouvir, falando para o tal velhote que estava à minha frente: “sabe, é que eu fui jornalista”
Tal não foi a minha admiração, não só por perceber que tinha falado com a ex-jornalista e ter tido vontade de falar mais com ela, conhecê-la, perceber a sua história, mas também, quando o senhor replica, dirigindo-se a mim:
“A menina sabe: é que eu também trabalhei num jornal”
Incrédula, fiquei a conversar com o antigo trabalhador de jornal, cujo nome desconheço, que me falou do jornalismo de hoje, do jornalismo de ontem… e do de amanhã.
E, enfim, chegámos aos nossos destinos. Eu fui para o comboio. Não reparei para onde o conhecedor dos jornais de antigamente foi.
Encontrei duas histórias de jornalistas, duas histórias sobre o jornalismo. Duas interpretações do jornalismo. E foi no local mais propício à conversa, a histórias deste e daquele - o barulhento e lotado metropolitano de Lisboa.
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