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Os risos do IPO  Enviar por email Imprimir

Susana Paula

Cheguei ao Instituto Português de Oncologia (IPO). Nunca cá tinha estado. Na entrada existe um jardim, um jardim grande, um jardim verde, um jardim acolhedor – um jardim saudável. Sentei-me no jardim e fiz tempo. De todas as pessoas à minha volta nenhuma parecia assemelhar-se à horrorosa descrição de “canceroso”. Aquela expressão horrível, de qual toda a gente sente medo.
Inconscientemente procurava a descrição que nos atormenta: o menino branco, frágil, vomitando, sem cabelo. Não o encontrava.

Andei perdida pelos longos, amarelos, escuros corredores e, enquanto por lá andava, olhava para todo o lado, procurava e tentava encontrar a criança doente.

Enfim, cheguei à unidade de transplante. À frente da entrada uma sala ampla, com uma porta daquelas que por cima tem um vidro. A porta era de latão, quase um portão. Aproximei-me e encontrei-a, vi-a. Encontrei a criança de cerca de 3 anos, entubada, careca, doente – muito doente. Finalmente a tinha encontrado, finalmente podia sentar-me e conseguir explicar a mim própria todo aquele mau estar, aquele sentimento que nem é nervosismo, nem é má disposição. Era tristeza, impotência.

Entro na unidade de transplante e sento-me na sala ao lado. É mesmo ao lado da criança. Ela está ali, ao meu lado, numa outra sala, ainda mais escura, cheia de bonecos pendurados minuciosamente limpos, mas incrivelmente tristes. Os bonecos convivem com o soro, os tubos, o oxigénio.

Nessa sala há dois sofás, estão de frente um para o outro. O companheiro de sofá do menino doente? Um velhote, ainda mais doente.

Mais uma menina. Esta é mais velha, deve estar na fase da puberdade. Mas que puberdade? De novo fechada neste lugar horrivel, escoltada por enfermeiros, e cujos amigos são os que lhe mudam o soro e esterilizam a roupa todos os dias? Não pode brincar, não pode correr, não pode estudar, não pode ter namorados. Pode estar ali, com o mais pequenino e o mais velhote.

Esta rapariga chama-se Catarina. Conheço-lhe o nome porque a chamaram. Tem um nome bonito e traz uma mala de viagem. Espero que não venha para ficar. A Catarina entra na sala do menino de três anos. Este chama-se Martim. Cumprimentam-se.
Um olá bonito, o olá mais bonito, mais vivo, mais feliz. Imagino o sorriso que pinta aquela sala, com o olá que a encheu de música.

A Catarina sai e volta a entrar na sala. Um novo olá. Este ainda mais feliz, ainda mais saudável, ainda mais vivo naquele sítio que só fica bonito quando o pintam os sorrisos e os olás - a vida e a saúde dos olás dos pequeninos.


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