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Chegada de Bhutto causa turbulência no Paquistão  Enviar por email Imprimir

Pedro Peixoto Alvares

Apoiantes de Bhutto depois das explosões

A chegada de Benazir Bhutto ao Paquistão confirmou as piores expectativas dos mais receosos: a antiga primeira-ministra paquistanesa regressou esta Sexta-Feira (19) ao país, depois de 8 anos de exílio auto-imposto, para ver a multidão de cerca de 250 mil pessoas que a recebia ser alvo de um duplo atentado suicida. De acordo com um alto funcionário policial, o propósito era atingir a própria Bhutto que, não obstante o facto de ter sido prevenida pela sua própria equipa de segurança, que a havia telefonado meia hora antes reportando uma ameaça de bomba, não havia recuado, ordenando, no entanto, que parte da sua comitiva a não acompanhasse.

O ataque ocorreu na madrugada de Sexta-feira e, não atingindo o seu objectivo principal, acabou matando mais de 130 pessoas e deixando 290 feridas. É já considerado o pior ataque terrorista deste ano em solo paquistanês. Em declarações numa conferência de imprensa dada, horas depois do ataque, em casa dos seus pais adoptivos, em Karachi, disse: “O ataque foi contra aquilo que eu represento. Foi contra a democracia e a própria unidade e integridade do Paquistão.”

Conhecida como uma apoiante incondicional da democracia, a ex-primeira-ministra paquistanesa e pró-americana revelou-se emocionada com o ataque, mas nem por isso vacilou. “Estamos preparados para arriscarmos as nossas vidas. Estamos preparados para arriscarmos a nossa liberdade. Mas não estamos preparados para entregarmos esta grande nação a militantes”, proferiu na conferência de imprensa.

Bhutto na conferência de imprensa

A referência feita era ao general Zia-ul-Haq e aos membros do seu antigo governo. Segundo Bhutto, terão sido os apoiantes do general Zia, antigo ditador militar do Paquistão, morto em 1988 na sequência de um misterioso acidente de aviação, os autores dos atentados. Dadas as suas ideias democráticas, a sua figura é vista como uma ameaça ao poder do antigo ditador que, em 1977 usurpou o poder a Zulfikar Ali Bhutto, pai da líder democrata. Para esta, não há quaisquer dúvidas: “Muitos [dos antigos apoiantes do general] retiraram-se, mas voltaram de novo. Hoje, detêm muito poder. Para eles, eu represento um perigo – se trouxer a democracia de volta ao país, eles perderão influência”.

Veja o vídeo da REUTERS com as declarações de Bhutto aqui.

Certo é que ninguém reivindicou ainda o atentado. O líder paquistanês, Pervez Musharraf, lamenta o sucedido, apelidando-o de “conspiração contra a democracia”, enquanto avança com o seu juízo. Segundo este, radicais islâmicos, com ligação à Al-Quaeda, terão tentado o assassínio de Bhutto. A polícia já intensificou as investigações aos militantes com ligação aos Taliban e às bases da Al-Quaeda na fronteira com o Afeganistão, depois de os ataques nesta zona terem aumentado nos últimos tempos. Bhutto, porém, considerou a acção de Musharraf insuficiente, apontando a sua falha na prevenção do ataque.

Benazir Bhutto

As eleições paquistanesas – razão pela qual Bhutto regressou ao país –, que se irão realizar em Janeiro, podem significar um ponto de viragem na cena política. Se o Partido do Povo Paquistanês (PPP), liderado pela própria Benazir Bhutto, vencer, o actual governo militar, governado por Pervez Musharraf, pode ver a sua influência diminuída. Recorde-se que o actual chefe de governo aguarda ainda pela reiteração, por parte do Supremo Tribunal, da sua reeleição para presidente do Paquistão, votada, no passado dia 7, por sufrágio indirecto no parlamento.

Não obstante, é conhecido o acordo, montado sob a égide norte-americana, entre o chefe do governo militar, Musharraf, e a líder democrata, no qual a última se propõe a apoiar o primeiro como presidente civil por mais 5 anos. Em troca, está a amnistia concedida por este aos crimes de corrupção de que Bhutto foi acusada, quando ainda em funções no Paquistão, acção sobejamente contestada junto da opinião pública paquistanesa.

Aos olhos de alguns analistas este acordo não favorece a imagem de Benazir, a qual, a julgar pelo apoio entusiástico com que foi recebida, é bastante forte. Segundo o analista Talat Aslam, “ao parecer mais americana que os americanos, ela pode transformar aquilo que é agora um antiamericanismo díspar numa posição comum”.

Com: Reuters, Al Jazeera, The Guardian, Público.


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