Crise queniana atiça rivalidades tribais
Pedro Peixoto Alvares
São já 27 os mortos resultantes dos confrontos entre as comunidades Kalenjin, apoiantes da oposição ao Governo, e Kikuyu, apoiantes do presidente Kibaki, e a intervenção policial subsequente que procurou pôr fim à violência. Em Nakuru, perto da capital, Nairobi, as questões políticas que têm vindo a fragilizar a estabilidade democrática do país degeneraram para contendas e acertos de conta entre as duas tribos, que se lançaram numa onda de violência empunhando bastões, arcos e flechas, lanças e outras armas rudimentares.

O tumulto no Quénia, que já dura desde as eleições de 27 de Dezembro, provocado pela acusação da oposição de que o governo havia forjado os resultados, chega assim ao volátil Rift Valley, zona habitada por tribos rivais e que tinha sido poupada até agora à violência, um dia depois de o presidente Kibaki e o líder da oposição Raila Odinga terem apertado as mãos, pela primeira vez desde que a crise se instaurou, alentando esperanças de uma resolução pacífica.
Após uma tentativa inicial da polícia para conter os insurgentes, um pedido de auxílio foi feito ao exército que, horas depois, tentava, a mando do governo, serenar os combatentes, à medida que estes pilhavam, incendiavam, roubavam a estagnada cidade de Nakuru. No seguimento do sucedido, o Governo impôs um recolher obrigatório, das 19h as 6h.
Os habitantes locais desesperam. “Não há nada que possamos fazer. Todos os que atiçam a violência ficam confortavelmente nas suas casas de luxo enquanto nós ardemos”, declarou à Reuters Urunga Maina, residente de Nakuru, enquanto carregava o seu sobrinho para o hospital, vítima da multidão. E continuou: “Estamos a ser sacrificados como cordeiros. O que interessa é que os políticos levam o que querem. Eles não querem saber dos ‘wananchi’ (povo) ”.
Desde Dezembro que a crise já fez mais de 700 mortos e deslocou 250.000 pessoas.
Kofi Annan condena abusos
No Quénia, apelando para o fim da crise e promovendo uma solução diplomática imediata, o antigo líder das Nações Unidas condenou os “horríveis e sistemáticos abusos dos direitos humanos”, ao longo da sua visita aos sítios mais destroçados. Segundo Annan, o conflito poderá ter sido instigado por uma crise política, mas já evoluiu para algo diferente.

Kofi Annan, na sua viagem diplomática pelo país, quis ver por ele próprio os locais da violência e onde semanas de conflito têm feito miséria entre o povo, tendo visitado algumas das milhares de pessoas em Eldoret cujas casas ficaram destruídas ou que se refugiaram na cidade à procura de abrigo. A província de Molo, onde muitos já pereceram, também foi visitada.
Em Nairobi, Annan reportou: “O que vimos foi trágico. Visitámos diversos campos IDP (pessoas internamente deslocadas), vimos pessoas levadas das suas casas, das suas quintas, avós, crianças, famílias desenraizadas. E acho que é importante que todos os quenianos respondam com simpatia e compreensão, e que não procurem a vingança.”
De seguida, apelou a mudanças estruturais que impeçam uma repetição da situação. “Não podemos aceitar que, periodicamente, a cada cinco anos ou assim, este tipo de incidente aconteça e ninguém seja responsabilizado. A impunidade não pode prevalecer.”
Mantendo conversas com oficiais e líderes religiosos, Sexta-feira em Nairobi, Kofi Annan apelou a um esforço comum de utilização das suas posições de liderança para encorajar o povo a trabalhar para a paz. “Os líderes podem não conseguir fazê-lo sozinhos. Todos temos de fazer a nossa parte”.
Fontes: Reuters, BBC, The Nation
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