CAIS: PONTO DE PARTIDA PARA NOVAS VIAGENS
Joana Machado Duarte

Cais (s/m): plataforma fixa de embarque e desembarque. Ponto de chegada, ponto de partida.
É difícil ficar indiferente à pobreza, à exclusão social, à marginalidade, ao desespero de quem não tem um lugar para onde voltar ao fim do dia; de quem não tem direito aos direitos mais básicos de subsistência. É difícil ficar indiferente mas é ainda mais difícil agir.
Os telejornais pintam a cena: tudo se resume a umas quantas histórias de vida que nos comovem profundamente mas que nada trazem de novo e de útil à resolução do problema.
Promovem a “caça ao culpado”. E nós? Culpamos o sistema, o governo, os próprios marginalizados. Culpamos o mundo e no fundo não culpamos ninguém. Pocuramos apenas resolver ou esconder situações demasiadamente pontuais. Porque é feio ter pena.
Em Portugal é de facto comum tapar o sol com a peneira. É urgente compreender que a solução passa pela autonomização da pessoa excluída, pela sua inserção ou reinserção social.
É neste âmbito que a CAIS trabalha. A CAIS é uma instituição particular de solidariedade social sem fins lucrativos. Opera em diferentes frentes no combate à exclusão e tem o seu maior projecto na revista homónima.
A revista CAIS (Círculo de Apoio à Integração dos Sem Abrigo) é exclusivamente vendida por pessoas sem-abrigo, que recebem 70% do preço de capa (2€). São atribuídas 300 revistas por vendedor, o que resulta num rendimento mensal de 420€. Faz parte da Rede Internacional de Jornais de Rua (INSP) e inspira-se na Big Issue, uma revista inglesa com o mesmo propósito.
A CAIS – Um projecto, um compromisso, um encontro.
Rita Duarte, responsável pelo gabinete de comunicação da revista, esclarece o conceito e fala-nos dos objectivos da mesma: “A nossa população alvo não é apenas os sem-abrigo no sentido restrito. Trabalhamos para as pessoas que vivem na rua, em albergues ou em condições precárias, em situação de risco, pobreza ou exclusão social. O nosso objectivo último seria que os vendedores se integrassem totalmente no mercado de trabalho e portanto a CAIS seria sempre um ponto de partida, um instrumento utilizado num momento de transição, num momento mais frágil. (…) Enquanto projecto editorial tem funcionado. Numa perspectiva prática, a concretização da autonomia tem sido mais complicada”.
Estas dificuldades de inserção no mercado de trabalho são reconhecidas pelo Sr. António Pina, no projecto CAIS há cerca de 11 anos. Depois de trabalhar na área da restauração em locais como o Hotel Ritz, a retinoplastia obrigou-o a viver na rua. Estava num albergue quando conheceu o projecto CAIS através da Dra. Ivone Espírito Santo. Apesar das dificuldades, diz sentir um “grande orgulho” em vender a revista. Aponta problemas mas essencialmente enaltece o projecto que lhe devolveu o contacto com as pessoas. “Há, indiscutivelmente, casos de sucesso. Mas são poucos em relação à quantidade de vendedores. Habituam-se e não querem sair com condições para serem integrados noutra situação. (…) Por exemplo, o Rui pinta e expõe na Rua Augusta. ”
É no sentido de aumentar os níveis de sucesso neste domínio que a CAIS irá ser sujeita, durante o presente ano, a um processo de reestruturação. Esta reestruturação passará essencialmente por um maior controlo e acompanhamento psicossocial dos vendedores feito na CAIS, que seguirá todo o processo de selecção e venda de forma mais próxima.
Rita Duarte refere que, com os problemas que a CAIS tem enfrentado, com o tráfico de revistas e má conduta dos vendedores “… era o próprio projecto que estava a perder credibilidade.”
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