Os últimos baleeiros
Alexandre Soares

No mar bonançoso distinguem-se dois pequenos botes – barcos estreitos e longos que se movimentam à vela, pela força do vento, ou a remos, pela força dos homens. Cada qual com sete homens. Ao seu lado, um vulto desenha no céu uma sombra negra com o seu corpo gigantesco: é um cachalote. Um dos botes, mais perto da baleia, ostenta um homem à proa que com um arpão na mão hesita em desferir o golpe fatal. São homens do Pico, assim como o bote. Alguém grita: “Ameia esse bote que as minhas mãos não vão aí mas o arpão vai!” É Eurico, um jovem de S. Jorge, que, no outro bote, se prepara para arpoar a baleia. Mas o bote do Pico adia o fim que o destino já traçou para aquele animal, insistindo intrometer-se entre o bote de S. Jorge e o cachalote. Eurico “era afoito” e, de um salto, larga o remo, chega-se à proa, lança o arpão e, “mesmo por cima do outro bote”, não falha o alvo – “Nunca vi um Homem chegar-se à proa como eu cheguei.” Zézinho da Luz tem em si a ponderação da idade e adverte Eurico. No bote vizinho, o arpoador prepara-se para com uma faca, a mesma que estava sempre à proa para o caso do bicho mergulhar e os quisesse arrastar consigo, cortar a linha. Eurico apercebe-se e ameaça ”não cortes a linha que eu despedaço-te a cabeça toda.”
Passaram-se mais de cinco décadas. Hoje encontro o Tio Eurico na sua casa, a uma escassa dúzia de passos do mar. Está sentado – a posição de quem quer ser ouvido. Os olhos, azuis, revelam inquietude; mas uma inquietude serena, própria de quem já viveu mais do que o tempo de que dispõem para contar. Em frente à janela, “olhando o mar, sonha sem ter de quê”. Quem ontem foi, ainda hoje nele vive…
- Disseram-me que o Senhor foi um grande arpoador, digo eu, ingénuo.
- O melhor. Melhor do que eu não passou nenhum, não se viu ninguém. O Cristiano era um trancador muito bom. Mas eu não ficava p’ra trás.Rapidamente me corrige o Tio Eurico.
- Vinha falar consigo sobre a caça à baleia, para um trabalho da escola que…
Escusado continuar a falar. Desenhou-se ali a precipitação vertiginosa de histórias recordadas com os olhos iluminados por um brilho misto de felicidade e melancolia.
O ano de 2007 assinala vinte anos passados desde que o último cachalote foi caçado nos mares dos Açores. Num arquipélago onde as técnicas de caça não evoluíram, há vinte anos ainda se caçava como Herman Melville nos relata em Moby Dick. Dar espaço à memória destes últimos baleeiros, que em minúsculos barcos ousaram atacar o mais corpulento animal à face da terra para encontrar um meio de subsistência numa economia débil dominada pela agro-pecuária e pela actividade piscatória, é reconhecer um século de cultura insular e reafirmar o desejo de preservar a memória de um modus vivendi, que tantas marcas deixou naqueles que lhe deram forma.
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