Operação Nariz Vermelho: palhaços de bata branca
Sandra Durães

Há oito anos que as terças e quintas-feiras são dia de visita dos Doutores Palhaços à pediatria do hospital D. Estefânia. Uma luz cheia de alegria e esperança que ajuda a melhorar o dia-a-dia das crianças hospitalizadas.
Quando um palhaço e uma criança se encontram, criam um mundo paralelo, de brincadeira, imaginação, liberdade e de inversão da realidade. Constroem uma linguagem própria, que consegue transformar toda realidade e o ambiente que os rodeia.
São 10 da manhã e já Ana Pio, mais conhecida por Xôtora Ninonete, e Harry Rothermel, ou melhor, o Dr. Batota, se encontram nas instalações do hospital a preparar mais um dia que se prevê animado e, como sempre, recheado de surpresas.
A primeira “actuação” da dupla tem lugar a caminho do serviço de fisioterapia. Embora as crianças sejam o principal alvo da Operação Nariz Vermelho, a alegria acaba por contagiar os profissionais de saúde e os familiares dos doentes.
Ninonete e Batota percorrem os corredores do hospital e as salas de espera. Num acto de espontaneidade transformam o ambiente, provocando o riso com brincadeiras ou animando com músicas e danças todos os presentes. Ficam fascinados, com os olhos a brilhar e o sorriso já colado à cara. O ambiente fica assim, por alguns minutos. Depois, a realidade volta ao que era. Esta realidade faz parte do objecto de estudo dos Doutores Palhaços.
Quando se fala em hospitais, surge-nos a ideia sombria da criança, muitas vezes rodeada de aparelhos que a intimidam e de uma linguagem que não compreende, sendo forçada a ser menos criança, a brincar menos, a sorrir menos.
Segundo Beatriz Quitella, presidente da Associação Nariz Vermelho, “as visitas dos Doutores Palhaços têm a função de transformar esta realidade trazendo às crianças a plena realidade do seu mundo: do olhar curioso, do sorriso franco, da espontaneidade e da constante vontade de brincar.”
Entramos agora na fisioterapia. Os profissionais de saúde já se habituaram às visitas destes Doutores muito especiais. A sala é grande e a “audiência” direcciona os seus olhares para o Dr. Batota e a Xôtora Ninonete. Começam a cantar e a dançar, contagiando todos os que ali se encontram. Uma criança, apesar de ter as pernas paralisadas, não resiste ao entusiasmo e começa a balançar-se no tapete da fisioterapia. Mas estes Doutores Palhaços não se ficam por aqui. Tentam chegar junto de cada criança, lidando com os diferentes problemas de cada pequeno.
Na sala ao lado, as crianças já os viram chegar. Começam a ficar irrequietas. Mesmo aquelas que só estavam de passagem pelo corredor, acompanhadas pelos pais, correm de sala em sala à procura de narizes vermelhos de animação. Quando os encontram ficam à porta, a espreitar, curiosas, a ver qual será o próximo “número”. Os olhos brilham, o sorriso estende-se por toda a cara. Assim fica a Carolina, que acaba o tratamento de hoje. Os pais chamam-na, mas ela permanece ali, fascinada, no seu mundo da imaginação.
Nos encontros com as crianças, além de muita imaginação e sensibilidade, os Doutores Palhaços usam as mais variadas técnicas pedagógicas e artísticas que permitem quebrar o gelo e transformar a realidade, nem que seja por um momento. É através das suas visitas que os doutores trabalham para melhorar a confiança, a auto-estima e o optimismo da criança.
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