Poesia em conversa de café
Susana Paula
João Gil, Carlos do Carmo, Rui Reininho e Manuel Alegre foram os nomes que, em tom de café, se juntaram ao jornalista da TSF Carlos Vaz Marques num ciclo de conversas sobre poesia, música e até política.
O evento? Café com Letras. Um encontro entre personalidades e as letras, estejam elas sob a forma de prosa ou poesia.
João Gil abriu a última sessão do Café com Letras. A sua primeira reacção demonstrou que aquela seria uma conversa informal, quase íntima, bem ao estilo do “Pessoal e Transmissível…”, o programa de Carlos Vaz Marques na referida estação de rádio. “Cheguem-se mais perto”, pediu o músico à sala semi-cheia. “Quero ver os vossos olhos, eles também falam”.
O jornalista da TSF lançou a conversa pelo percurso musical de João Gil. Com o simples objectivo de perceber o significado da poesia na vida musical de Gil. “A poesia é a âncora para não fugir do rigor d ávida musical”, confessou o músico. Para o mesmo, “quando começamos a descobrir a poesia obrigamo-nos a criar, a ter algum rigor em criar uma música”
João Gil sempre cantou em português. Reconhece a força da língua portuguesa e a transcendência da poesia portuguesa.
Contudo, o músico admite também que existe ainda “algum pudor” no que diz respeito a cantar em português. “Um ‘amo-te’ pode soar de forma horrível”, exemplifica o da Filarmónica Gil. E acrescenta: “existem ainda muitos músicos portugueses que têm medo de usar um ‘amo-te’ nos seus temas”.
Gil referiu Rui Reininho como dos melhores músicos portugueses a fugir ao pudor que existe quando se canta em português.

Na sua conversa com Carlos Vaz Marques, Rui Reininho falou, conversou, sobre si, sobre o Porto, sobre música, sobre a rádio, sobre cultura. De livros falou pouco. À pergunta do jornalista da TSF “que livros lê?”, Reininho respondeu que lia jornais, mas que preferia os desportivos. Informal, controverso, à sua maneira, muito popless.

Pouco informal esteve Manuel Alegre. Mesmo com uma interpretação de um grupo de teatro de dois dos seus poemas, os seus gritos de “O Hoje É Aqui” ou “É possível ser livre”, o ex-candidato à presidência da república manteve a sua formalidade perante uma sala lotada de muitos admiradores.
Não só a sua informalidade foi motivada pelo seu prestígio social, como, quando lhe era referida a poesia, o tema tombava para a política.
Alegre confessou, tristemente, o “défice de poesia” que existe em Portugal. Mas de uma poesia de “sonho, utopia, confiança e esperança” – no sentido em que a palavra tem poder mas que não é bem usada nos dias de hoje.
Inquirido sobre se a sua poesia fora panfletária, o poeta opôs-se à ideia explicando que ela “nunca o foi como a de Sophia ou como Jorge de Sena”. E confessou ainda: “a minha poesia teve consequências políticas, mas pela poesia”. Manuel Alegre considerou-se um “poeta emprestado à política”.
E como não? Conversou sobre o cartaz do PNR, sobre o concurso os Grandes Portugueses, do serviço público de televisão… E voltou às letras.
“O Camões é um milagre”, rematou.
Conversaram, no Café com letras, todos eles, sobre a poesia nas suas diferentes perspectivas.
O Café com Letras é um evento da organização da Câmara de Oeiras. A cada última quarta-feira do mês, uma personalidade conversa, e bebe café, sobre letras, poesia, prosa e… sobre temas que daí surjam, na Biblioteca Municipal de Oeiras.
Oiça poemas de Manuel Alegre lidos pelo próprio.
Por motivos técnicos não foi possível, a’O Amador, cobrir a conversa de Carlos do Carmo. Assim, pedimos as nossas desculpas. Fica a fotografia do site oficial da CMO.
Artigos relacionados:


