Madeleine McCann: um caso de ‘cavalgada mediática’
Bruno Cardoso
Está quase a fazer um mês que a pequena Madeleine McCann desapareceu da Praia da Luz, no Algarve. O assunto, que à semelhança de outros já poderia ter caído no esquecimento, tem ganho cada vez mais tempo de antena. Mas afinal, o que faz com que o caso da pequena Maddie concentre toda esta mediatização que tantas vezes foi negada a outras crianças desaparecidas?
Estupefacção é a palavra mais adequada para caracterizar os resultados da ‘estratégia de dor’ dos pais da pequena Maddie. Desde o desaparecimento da menina, no passado dia 03 de Maio, o casal McCann tem-se desdobrado diariamente numa ‘roda viva’ para evitar que o caso acabe no esquecimento.
Os pais de Maddie falam, quase que diariamente, para a imprensa no aldeamento da Praia da Luz. Inicialmente apenas com a imprensa portuguesa. Depois com a imprensa mundial que passou a interessar-se pelo caso dada a sua grande ‘cavalgada mediática’. O casal McCann passeia pela praia, pelo aldeamento com os seus dois outros filhos, um casal de gémeos, agarram-se ao peluche da filha agora desaparecida, anunciam um encontro com o Papa, uma viagem de sensibilização por alguns países da Europa e, quiçá, por outros países do mundo.
Os advogados contratados pelos pais de Maddie já assumiram que a sua principal missão é fazer com que o caso continue bem vivo nos media: abrindo telejornais, enchendo páginas de jornais diários, multiplicando-se pela Internet. E, de acordo com o jornalista Rodrigo Guedes de Carvalho, é aqui “que os media caíram numa armadilha”.
RTP, SIC e TVI foram as estações televisivas que desde o início se interessaram pelo caso. As revistas cor-de-rosa idem. Dias depois, chegaram a Portugal, em peso, vários órgãos de comunicação internacionais, especialmente britânicos: ITV, BBC e Sky News. Mas também a espanhola TVE, a norte-americana CNN, a mexicana Televisa, e ainda agências de informação mundiais assentaram arraiais no Algarve. A atribuição de tanto tempo de antena a este caso leva os media a cair na ‘armadilha’ montada pelos advogados do casal McCann.
Os protagonistas da agenda mediática passaram agora a ser conhecidos. Os pais e familiares de Madeleine McCann, o suspeito Robert Murat, a polícia portuguesa e britânica, os residentes no aldeamento da Praia da Luz, entre outros esporadicamente ligados ao caso, entram diariamente pelas nossas casas. Mas outros motivos podem ter a sua quota-parte no não esquecimento deste caso. O facto de a pequena Maddie ser uma criança angelical, doce, terna e inglesa, talvez este último motivo seja o mais desconcertante, não chega para justificar por si só a situação actual. A outra justificativa é a onda de apelos e recompensas que publicitam o desaparecimento.
Em Fátima aconteceu uma manifestação de solidariedade por Madeleine no dia da Nossa Senhora. Os apelos de David Beckham e Cristiano Ronaldo, as recompensas do britânico The Sun, de J.K. Rowling, autora de Harry Potter, a realização de eventos desportivos, vigílias no Reino Unido, pistas falsas, um encontro com o Papa em Roma e uma possível viagem do casal McCann pela Europa, a começar pela Suécia, são algumas das acções que têm impedido, de algum modo, o esquecimento deste gritante caso. O site Find Madeleine (www.findmadeleine.com) foi criado especialmente para ajudar na resolução deste caso. Para compilar pistas, recompensas, apelos, fotografias… Mas tornou-se mais uma mera fonte informativa.
E em Portugal? O que justifica continuar a dar este tempo de antena que foi negado a tantas outras crianças desaparecidas? Os casos de Rui Pedro, desaparecido em 1998, de Rui Pereira, em 1999, de Jorge Manuel Sepúlveda, em 1991, entre outros, são apenas alguns casos que tornam esta super-exposição mediática difícil de entender.
Apesar de tanta solidariedade, será que uma criança portuguesa que tivesse, eventualmente, desaparecido no Reino Unido teria tido igual destaque como o caso de Maddie? Claro que não, afirmou prontamente uma repórter da Sky News a uma jornalista da SIC.
A dor do casal McCann mantém-se, embora atenuada pela fé de que tudo venha ainda a ter um final feliz. Até lá, cabe inteiramente aos media discernir entre o que é realmente relevante e o que pode ser considerado meramente uma ferramenta manipulável, se recordarmos o objectivo do casal McCann, e ainda manipuladora, quando percebemos que a mesma situação é já uma ‘cavalgada mediática’ produzida para apenas ser vendida e, posteriormente, por nós engolida.

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