Passaporte para a Realidade
Susana Paula

Passaporte para o Céu, de Paulo Moura, não é uma banal reportagem. Não é, também, uma banal narrativa da realidade. Não é um banal romance verídico. Passaporte para o Céu é a crua reportagem de uma realidade, retratada em conjunto com uma amálgama de sensações, à semelhança de um romance. Ler Moura é conhecer a realidade à qual o jornalismo muitas vezes fecha os olhos. Ler Moura é adquirir uma consciência social, uma consciencialização que pode chegar à própria responsabilidade social. Na verdade, ler Moura é adquirir uma nova maneira de olhar para o mundo.
No mundo retratado por Moura são muitas as personagens e todas elas têm um papel principal no desenvolvimento da acção: são exemplos reais e concretos do tema que se pretende pintar. E todas elas, apesar dos diferentes nomes, das diferentes idades, dos diferentes sexos, das diferentes naturalidades, têm o mesmo sonho: chegar ao céu. O céu é, para os milhares de imigrantes subsaarianos representados por Gloria, Juliete, Lazarus, Benjamim, George, Michael, a Europa – a Europa das oportunidades, da tecnologia, do desenvolvimento, da qualidade de vida, da riqueza -, que se opõe ao inferno, ou seja, África – a terra da pobreza, da fome, da miséria, da desigualdade.
Através da obra, tomamos consciência da dura viagem que milhares de clandestinos fazem do inferno até ao céu. Tomamos consciência das condições que aceitam, os contractos que assinam, os truques a que se submetem. Conscializamo-nos de que entre o inferno e o céu há uma história interminável e cruel à qual, todos os dias, milhares de pessoas se submetem. Desde a partida das suas terras natal até à chegada à terra prometida, a multidão de imigrantes africanos é vítima, diariamente, de roubo, violação, discriminação, corrupção, caça.
Moura traz-nos a fealdade de Algeciras, o contraste entre os que voltam de férias a África e os que pretendem dela fugir. Traz-nos a realidade das muitas mulheres que engravidam, incentivadas pela máfia, para que os seus filhos nasçam em Espanha e, por conseguinte, consigam a nacionalidade espanhola. Bebés esses que são, mais tarde, abandonados ou vendidos. Moura relata o auxílio que o Padre Pateras oferece a jovens mães nigerianas e aos seus bebés, e a publicidade que Pateras necessita para poder continuar a sua missão. “ «O Bem é cego, surdo e mudo. Não conhece raças nem religiões, e não faz perguntas», costuma ele dizer “. Relata como essas nigerianas estão condenadas à prostituição não só pelas ruas de Algeciras mas também quando chegam à Europa, presas a uma rede de corrupção. Relata a ilegalidade de Tânger: as redes organizadas de imigração clandestina, o contrabando, as drogas. Moura demonstra as condições de sobrevivência dos “camarades”, como são denominados pelos marroquinos, nas pensões ilegais que os acolhem. Demonstra como pelo sonho de chegar ao Céu, dezenas de negros se submetem a fazer a travessia do Estreito de Gibraltar em frágeis pateras ou zodiacs. E demonstra como os camarades esperam dias, anos, meses, em silêncio na floresta de Missnana, vivendo em arbustos, escondidos em buracos, passando fome, frio, morrendo de doenças infecciosas e morrendo, também, como objecto de caçadas, de matanças.
“ São milhares e estão à mercê. São uma reserva ilimitada de vítimas, do inconfessável, do arbitrário, do impune, do obsceno “, escreve Moura. “ «O mundo sabe que estamos aqui?», pergunta Jonathan de 29 anos”.
O mundo soube, através de Passaporte para o Céu. Não através do jornalismo convencional, mas através de um livro. Para o jornalismo praticado diariamente a interminável viagem destes seres humanos não é importante. Não terá valor notícia? Não terá valor na nossa vida, na nossa sociedade? Ou não será vendível?
Ao contrário das banais práticas jornalísticas que nos dias de hoje vão sendo vendidas, Paulo Moura consegue trazer o valor ao jornalismo, através deste livro. Passaporte para o Céu é um livro de louvor jornalístico. È um livro que denota que a preocupação do jornalista não é a comercialização da obra, mas o retrato de uma realidade que é desconhecida da maior parte dos europeus e que é, também, muitas vezes, esquecida não só pelas autoridades competentes, mas pelo próprio jornalismo. Moura não se escondeu.
Moura compreendeu que o jornalismo deve ser visto como um instrumento que pode ensinar, iluminar, consciencializar. E porque todos os dias são cometidas as piores crueldades, o jornalismo deve ser usado contra a ignorância, intolerância e indiferença. Passaporte para o Céu é, neste sentido, um livro por um mundo mais consciente e menos indiferente.
Moura alia as técnicas jornalísticas de apuramento dos factos “aos extraordinários dotes de contador de histórias”, como afirma Mark Kramer, no prefácio. Daí resulta um jornalismo consciente, marcado por duas grandes características: o jornalismo literário e o jornalismo social.
Jornalismo devido à actualidade do tema retratado, à veracidade dos factos, à realidade das personagens. Social pois a responsabilidade social está presente em todos os acontecimentos que são narrados: os temas são abordados com extremo cuidado e sob diferentes ângulos, o que permite que se obtenha uma perspectiva do problema quase total. Jornalismo responsável e consciente que se apercebe de que a imigração clandestina é um problema das sociedades industrializadas, não por ser um problema de entrada clandestina, mas por todos os direitos que são esquecidos durante as longas viagens, por todos os abusos e arbitrariedades aos quais, hoje e agora, milhares de seres humanos se submetem.
Narrativo, devido ao estilo. A discrição das personagens surge não dos adjectivos que Moura lhes atribui, mas pelos seus comportamentos. O espaço aparece aliado a determinados comportamentos e situações. Se Moura o descreve através da nomeação de cheiros, luzes, cores, estes elementos servem para reforçar a carga simbólica do determinado espaço. O tempo, esse, está ligado ao congestionamento entre o inferno e o céu. As metáforas das quais Moura se serve surgem no fim de cada capítulo, como pequenas metáforas da conclusão.
Passaporte para o Céu não tem uma conclusão. Algo que se deve, em primeiro lugar, à continuidade da história narrada. As personagens continuam a viver as suas vidas, os espaços continuam a fomentar os mesmos comportamentos. A inexistência de uma conclusão permite que os leitores retirem as suas próprias conclusões: a informação é dada, jornalisticamente, e os leitores assimilam-na e acomodam-na de acordo com a sua subjectividade.
Passaporte para o Céu é mais que uma reportagem, é mais que uma narração. É a obra que o autor não consegue acabar, o problema que o mundo ocidental não consegue solucionar. E, mais que isso, é uma obra de valor jornalístico puro: pelas causas em si mesmas.
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