Os ‘Sete pecados’ dos jornalistas face ao fogo
Ana Sofia Covas
A Liga de Bombeiros Portugueses (LBP) organizou, juntamente com a Escola Superior de Comunicação Social (ESCS), um debate com o mote “Dever de socorrer, direito de informar”. Neste analisou-se a cobertura mediática dos incêndios e da acção dos bombeiros, estando presentes jornalistas, académicos e um bombeiro.
Um dos pontos fortes deste debate foi trazido à luz do dia por David Pontes, director-adjunto do Jornal de Notícias (JN), que começou por dizer: “os jornais têm a vida facilitada: ninguém se lembra de nós…”. Em seguida, apresentou a sua visão daqueles que serão os (eventuais) «sete pecados» da cobertura jornalística (e consequentemente dos jornalistas) face aos incêndios e aos bombeiros. «Pecado um: somos acusados de explorar as imagens de destruição. Pecado dois: somos acusados de sermos alarmistas. Pecado três: somos acusados de explorar emoções. Pecado quatro: somos acusados de dar visões parcelares e incompletas. Pecado cinco: somos acusados de dar crédito a fontes pouco credíveis, ou então só ao Governo. Pecado seis: somos acusados de sermos acríticos. Pecado sete: somos acusados de só querermos saber dos fogos quando estes acontecem.» Para cada «pecado», uma explicação da parte do jornalista.
Quanto à exploração de imagens de destruição, David Pontes afirmou: «as imagens não influenciam a venda dos jornais, e para além disso são incontornáveis, de uma força imensa». Em seguida, referindo-se ao alarmismo, reconheceu que os jornalistas «por vezes são alarmistas, não sendo capazes de discernir a realidade tal como ela é».
Explorar emoções? «Mas elas estão lá… Não dar voz à população é de uma irracionalidade completa – ainda que muitas vezes falte o discurso racional (dos bombeiros, do Governo, …) para colmatar o exagero do emocional.Quanto a eventuais visões parcelares, o jornalista do JN defende que os jornalistas devem sempre procurar fazer “um trabalho de comparação, para darem um enquadramento claro da situação».
David Pontes rejeita a acusação de que seja dado crédito a fontes pouco credíveis ou só ao Governo. «São muitas vezes os autarcas e os bombeiros os únicos que aceitam falar!». E quanto ao acriticismo dos jornalistas, também o rejeita: «actualmente não é de todo verdade, embora o possa ter sido noutro tempo».
Por último, no que respeita ao interesse pelos fogos única e exclusivamente quando estes acontecem, não hesitou em dizer: «isso em parte é natural, pois é difícil prender a atenção do público a algo que não está a acontecer no imediato». O director-adjunto terminou a sua exposição remontando ao mote do debate: «dificilmente o ‘direito de informar’ perturba o ‘dever de socorrer’».
Outros importantes contributos saíram deste debate, entre eles o de Luís Marinho, director de Informação da RTP, que sublinhou: «os fogos já são tão previsíveis como uma conferência de imprensa ou uma eleição, daí até se falar de uma ‘época de incêndios’».
Este referiu ainda o papel essencialmente “relativo” dos incêndios nas notícias transmitidas pela RTP, socorrendo-se de uma frase-chave: «Há incêndios, e há outras coisas». Por outro lado, Mário Moura, director-adjunto de Informação da TVI, foi sintético, e salientou sobretudo que o critério usado na sua redacção é «o jornalístico e não o remunerar o accionista».
Por seu lado, Óscar Mascarenhas, docente da ESCS, utilizou uma metáfora para explicar o pensamento de muitos durante a época de incêndios (expressão acerca da qual, aliás, ironizou): «São Pedro deixa, o incendiário quer, a mata arde».
As duas últimas intervenções foram feitas por José Luís Garcia, sociólogo, que explicou de forma entusiástica o «valor simbólico das chamas, que são a imagem absoluta, que são irresistíveis e sinónimo de fascínio e magia», e por Telmo Gonçalves, também docente da ESCS, que vê o Governo como «uma voz activa em relação aos incêndios», sendo este «um problema que precisa de gestão política».
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