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Mais perto do sangue universal  Enviar por email Imprimir

Susana Paula

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Os glóbulos vermelhos do sangue são todos diferentes – mas poderão deixar de ser.

Em função de diferentes moléculas que apresentam à sua superfície, os glóbulos pertencem a um de quatro grandes grupos: A, B, AB ou O.

Estas letras aparentemente inócuas poderão fazer a diferença entre a vida e a morte se, por alguma razão, viermos a precisar de uma transfusão sanguínea. Isto porque alguns destes grupos sanguíneos são incompatíveis com outros, e a mistura de sangues incompatíveis pode provocar, no organismo do receptor de uma transfusão, graves reacções imunitárias e inclusivamente, conduzir à sua morte.

Há um tipo de glóbulos vermelhos que pode ser inoculado em qualquer pessoa sem provocar reacções potencialmente letais: o O. Por isso, o sangue de tipo O é o mais procurado doente que precisa urgentemente de uma boa dose de glóbulos vermelhos e não há tempo para determinar o seu tipo de sangue.

Os glóbulos vermelhos dos diversos grupos diferem uns dos outros através de pequenas moléculas de açúcar, chamadas “antigénios”, presentes nas extremidades das suas moléculas de superfície. Enquanto os grupos A, B e AB têm “antigénios” (os do A difere dos do grupo B e o grupo AB tem os dois tipos de “antigénios”), já os glóbulos vermelhos de tipo O estão deles desprovidos, o que não suscita qualquer reacção indesejável por parte do organismo dos receptores da transfusão.

A pesquisa na transformação de qualquer sangue em sangue de tipo O, eliminando as moléculas de açúcar que distinguem os glóbulos vermelhos dos diversos grupos, já é longa. O princípio é simples e foi vislumbrado pelo norte-americano Jack Goldstein nos anos 80: bastaria descobrir uma ou várias enzimas - as enzimas são capazes de cortar outras moléculas em sítios muito específicos - que cortassem apenas as pontinhas reactivas, deixando intacto o resto das células sanguíneas. Goldstein encontrou uma no café que resultava para o grupo B mas não para o A. Além disso o processo era pouco eficiente, explicam os cientistas que encontraram duas enzimas capazes de transformar qualquer tipo de sangue no sangue O.

25 anos depois, os cientistas Henrik Clausen, da Universidade de Copenhaga, e os seus colegas deram mais um grande passo na obtenção de “glóbulos vermelhos universais”, como eles próprios os designam no título do seu artigo, na última edição on-line da revista Nature Biotechnology.

O que Clausen os seus colegas de vários países (EUA, França, Suécia) fizeram foi procurar, entre cerca de 2500 bactérias e fungos, enzimas produzidas por esses microrganismos que conseguissem retirar os açúcares indesejáveis sem pôr em causa a integridade e a função dos glóbulos vermelhos. Por outro lado, era necessário que essas enzimas se revelassem eficazes mesmo em pequenas quantidades. E descobriram duas.

Os problemas ainda não estão todos resolvidos, dizem. Ainda será preciso testar não apenas a eficácia, mas sobretudo a inocuidade destes glóbulos vermelhos “todo-o-terreno” nos seres humanos. Mas, se se confirmarem as expectativas, as implicações serão imensas. “Ficamos à espera dos resultados dos ensaios clínicos com interesse”, dizem por seu lado Geoff Daniels, do Instituto de Ciências da Transfusão de Bristol (Reino Unido), e Stephen Withers, da Universidade da Colúmbia Britânica (Canadá), num artigo que acompanha a publicação dos resultados na mesma revista.

Gabriel de Olim, presidente do Instituto Português do Sangue, afirma que este “é um passo importante sobretudo em situações de guerra ou calamidade ter disponível um sangue universal”.


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