Um Elogio a Mary Quant
Eliana Silva

Ela inventou a mini-saia. Esta não é uma personagem inventada. Ela é Mary Quant. E isto é um elogio à sua ousadia.
Estamos no final dos anos 50. Vive-se numa época de prosperidade financeira caracterizado por um clima de euforia consumista gerada nos anos do pós-guerra. Esta exaltação influenciou uma geração de jovens, filhos do chamado “baby boom” norte-americano. A década que começava prometia grandes transformações nos modos de estar. O primeiro sinal foi mesmo o êxtase provocado pelo Rock and Roll e o sucesso frenético de Elvis Presley, o seu maior símbolo.
Os anos 60 ficaram marcados como a década em que tudo aconteceu. As manifestações, as rebeldias, as igualdades e desigualdades, o meio-ambiente, o amor, a droga e o sentimento genuíno. Ideias fantasticamente geniais brotavam em diferentes áreas, no teatro, na pintura, fotografia, sempre interligadas a um optimismo generalizado. Estava em marcha uma complexa mudança nos domínios sexualidade, com o surgimento da pílula anticoncepcional, que alterava radicalmente a relação entre homens e mulheres.

Ela era estudante e achava a moda terrivelmente feia. No início, Mary Quant vendia roupas, mas, aos poucos, decidiu vender as peças que criava. Dom, sensibilidade especial, instinto. Independentemente do apelido dado à sua atitude, a verdade é que, Quant cedo descobriu que o mundo vivia uma época de contestação dos valores estabelecidos. Os jovens, que começavam a envolver-se no movimento hippie, queriam roupas diferentes, provocantes, abusadas. Era o fim da moda única. A moda era não seguir a moda, o que representava claramente um sinal de liberdade, o grande desejo da juventude da época.
A inglesa Mary Quant foi a responsável pelo lançamento, em 1960, do diminuto pedaço de pano que mudou o guarda-roupa feminino. As saias de 30cm de comprimento eram usadas com camisetas justas e botas altas. Sempre conhecida por ter uma postura irreverente face à Moda, Quant tornou-se num símbolo do “London look” e conquistou o sucesso como estilista e empresária com apenas 30 anos.
Ao fim e ao cabo, Mary Quant acabou por democratizar a utilização da mini-saia entre nobres e plebeias. O que fez com que se destacasse na época foi a capacidade de lançar uma moda que reflectia o humor de seu tempo.
Era uma mulher com um verdadeiro espírito liberal, criando um estilo novo, alegre e descontraído. Nas vitrinas das suas lojas encontrava-se de tudo e a estilista chegou a criar uma colecção a que chamou de Wet, feita de PVC, e foi a primeira a lançar tops de croché, outra epidemia que correu o mundo; para além disso, colocou em evidência roupas de malha canelada coladas ao corpo e cintos largos a segurar o peito.
Acabou com as assimetrias etárias e rompeu a barreira entre as roupas formais e informais. Adulterou por completo as estruturas conceptuais até então aceites em Moda e fez com que qualquer mulher andasse com uma saia até meio da coxa.

Não é um artigo arbitrário. É a chegada do calor tardio a uma terra de praia.
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