ModaLisboa, a mais Desejada
Eliana Silva

A modelo portuguesa Rita
A moda Lisboa
É um ambiente restrito. As luzes mais ou menos baixas com cores azuis e pretas aceleram uma noite que ainda não chegou.
Vêem-se caras impecavelmente maquilhadas, inclusive a dos homens. Há muitas mulheres grandes e magras, mas nem todas bonitas. Não me sinto feia e continuo a olhar para os rostos que trabalham na fauna que é o mundo da Moda. Meninas baixas e morenas oferecem uns brindes logo à entrada. São iguais a outras tantas. Mais adiante vários expositores puxam o visitante para coleccionar uma revista. E outra. Outra. E mais outra. Acabei por trazer apenas aquelas que ficariam bem na minha nova mesa de sala. Continuo.
Cabeleireiros penteiam os cabelos estrambólicos de várias cabeças. São do norte do país, magros e assanhados. Vestem de preto tal como as bonitas raparigas que os publicitam. Ao lado estão as maquilhadoras, são duas e uma delas, esquece-se de aplicar a sua arte no seu próprio rosto, mas a outra, a que me maquilha, é linda. Pergunto-lhe se está cansada quando me sento na cadeira para ela me pincelar o rosto. Sorri amareladamente e diz que tem sempre a mesma cara. Calo-me e deixo-a fazer o seu trabalho até que exclama: “És bonita!” Sorrio e olho-me ao espelho. Fiquei bonita.
Agora são os balcões de bebida alcoólica, um de electrodoméstico, outro de água gaseificada e ainda um de café. Não paro em nenhum deles. A música chama-me a atenção. É francesa. Gosto e o meu pé começa instintivamente a bater na alcatifa azul. O ritmo acelera e as minhas mãos batem uma na outra, e sem me aperceber as minhas ancas balançam de um lado para o outro como se as minhas pernas estivessem entaladas entre duas paredes à minha medida.
Volto através de uma qualquer nova tecnologia que me permite jogar bolling com um comando. É mais ou menos giro e aborreço-me rapidamente daquele jogo que me poderia habilitar a ganhar uma impressora. Passeio pela sala. A bexiga pesa-me, e na casa de banho encontro duas meninas grandes, que já tinha visto lá dentro, sentadas e normais. Sim, normais. Fantasticamente maquilhadas, lindas, loiras e altas mas normais, gozando uns minutos de descanso, fumando o seu cigarro, sentando numa bancada de mármore. Agora reconheço a indumentária. São do balcão da água gaseificada. São bonitas e distantes. Lavo as mãos e venho-me embora.
Um sino toca algumas vezes. É hora de entrar para o recinto do desfile. O controlo por uns códigos de barra nos convites confirma-me o restrito acesso a um local como este. O nível das luzes baixou consideravelmente e penetro finalmente na essência de um desfile de Moda. Se lá dentro os burburinhos era sobre quem passa, quando passa e como passa, agora o falatório intensifica-se e transforma-se numa homogénea massa de sussurros. Tenho quase a certeza de que as pausas entre palavras são feitas ao mesmo tempo, os silêncios e as acelerações do falatório também. Perante uma passarelle com cerca de 50 metros vão dançar vários corpos em cima de mini-antas de 20centímetros. Estou pronta para o espectáculo.
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