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Miguel Sousa Tavares – Rio das Flores  Enviar por email Imprimir

João Lascas

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Romance documentado

Rio das Flores é uma história simples. Todo o romance se consegue resumir a um parágrafo, pois basicamente, não se passa nada de importante na vida das personagens até poucas páginas do fim.
Os Ribera Flores vivem em Estremoz, são a típica família alentejana. Diogo e Pedro são os herdeiros da herdade onde vivem. Diogo é o oposto do irmão, sonhador, ambiciona construir família, mas num país livre, onde possa gozar a vida, ler os seus livros, os seus jornais, sem censura. Já Pedro, é a favor da ditadura, acha que o Estado Novo faz com que Portugal desenvolva. É um patriota fincado.
Além de Estremoz, a história desenrola-se (ou não, porque o novelo do enredo é solto a 30 páginas do fim) em Lisboa, em Espanha e no Brasil. Lisboa é a cidade de escape de Diogo, gosta daquele ócio que se sente por lá, de ter as notícias daquilo que acontece no mundo em primeira mão. É em Lisboa que decide juntar-se a dois homens e construir um negócio de exportação de bens do Brasil. E é por este negócio que Diogo começa a viajar para o Brasil e a começar a gostar cada vez mais do país.
Pedro continua confinado a Estremoz, mas decide, um dia, lutar na Guerra Civil Espanhola, depois de uma desilusão amorosa.
Toda a história se desenrola mais ou menos na primeira metade do século XX, abrangendo a Primeira Grande Guerra, a queda da República em Portugal, a Guerra Civil Espanhola e a Segunda Grande Guerra. Para um autor jornalista, tem aqui muito material por onde pesquisar e por onde pegar, para que as suas personagens se envolvam nos acontecimentos que marcaram esta metade do século. E esse é, talvez, o maior erro de Rio das Flores, todos estes acontecimentos são demasiado explorados. São páginas e páginas seguidas de descrição de acontecimentos de qualquer uma destas guerras, onde raramente se toca no nome de alguma das personagens. O romance está visivelmente dividido em dois. Há a parte da evolução das personagens (que é quase nula) e a parte dos acontecimentos históricos (que de nula, as suas descrições não têm nada).
Claro que é de louvar o grande trabalho de pesquisa que Miguel Sousa Tavares fez para este livro mas, o que se destaca mais neste livro não é a história das personagens, mas sim o relato histórico daquilo que acompanha as suas vidas, o que não é o mais importante num romance. Talvez, num próximo livro, Miguel Sousa Tavares consiga distinguir a profissão de jornalista, da profissão de escritor, porque acho que as confundiu um pouco no livro. O jornalismo ressente-se muito mais no livro do que a dita literatura que o romance prometia.


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